domingo, 13 de setembro de 2026

Tequila Sunrise

 


E então, vi Araruama pela última vez. Observar lugares provoca uma sensação estranha. Da mesma forma que você pode evitar palavras com um simples olhar, aquilo que você vê pode falar sem nada dizer. Passamos pelo Boqueirão como um raio de metal e fumaça; a velocidade purificava nossos pensamentos, limpava a fuligem daqueles sonhos de verão. Paramos para pegar Morcego Willis, o dono da Rural, na casa de uma jovem garota. Navi perguntou:

— E aí, Morcego, como você está?
— Willis Reginis! — ele disse e cantarolou: — E um bêbado trajando luto. Me lembrou Carlitos...

Ele tinha essa mania de responder com músicas. Sempre esculhambando o nome do cantor.

De volta ao asfalto, a Rural cortava a rodovia de pista simples, espremida entre as montanhas verdes e os espelhos d’água das lagunas. O som do carro chiava com a banda Eagles; aquela coletânea parecia ditar nossos assuntos fragmentados.

Centenas de motoristas cruzavam aquela mesma estrada todos os dias. Olhavam para as mesmas lagoas, para o mesmo mato na beira do acostamento, e enxergavam apenas a pressa do retorno, o trânsito ou a contagem dos quilômetros. Uma moldura comum, gasta pelo hábito.

Mas o Morcego via outra coisa. Ele ia com a cara na janela, de óculos espelhados, olhando para a paisagem como se estivesse decodificando um segredo que mais ninguém conseguia ler. Enquanto o resto do mundo usava os olhos só para guiar o carro, ele usava para distorcer a realidade a nosso favor. — Olha lá, Navi... Cata-ventos e a gente rumo ao relento.

Navi sorriu de canto, mudando a marcha da Rural com um estalo seco. O asfalto comum sumiu. Nós não estávamos só passando por um lugar; estávamos inventando o lugar enquanto avançávamos.

No entanto, por trás do cinzel daquela tarde dourada, ocorria em mim uma silenciosa e irremediável ruína. Foi precisamente ali, sob a luz curva que fracionava as colinas, que a consciência se desfez de suas ilusões cronológicas e me entregou a fria constatação: eu me despedia, em definitivo, da minha própria juventude. Aquela era a derradeira liturgia com aqueles amigos; o solo daquela região transmudava-se, a partir daquele quilômetro, em território interditado ao meu futuro. Nunca mais haveria o retorno. E a percepção desse exílio voluntário carregava uma rigidez dilacerante. Era uma dor seminal, simétrica e vasta. O colapso de um mundo inteiro comprimido no espaço de um sopro.

Charro Sendero


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Big Boy, no Cavern Club de hoje!

  Uma viagem ao quarto da casa 4 Ontem, depois de algumas longnecks e de uma dessas conversas inúteis que às vezes salvam a noite, resolvi v...