No longo deck de madeira à beira da lagoa da praia da Pitória, lia que o amor já havia sido condenado muito antes de eu nascer. No livro, era fogo que não se vê, ferida que não sangra, prisão que tanto desejamos. Achava que o amor fosse isso: uma contradição que se recusa a ser resolvida.
Queremos possuir aquilo que nos escapa.
Queremos permanecer justamente onde deveríamos partir.
E, quando finalmente encontramos alguém capaz de nos ferir, chamamos a permanência de lealdade.
Camões sabia. Eu apenas demorei muitas estações para descobrir que o amor não é aquilo que nos completa. É o que nos revela incompletos, e é por isso que continuamos procurando — não porque esperamos encontrar alguém.
Por alguns instantes, desejamos encontrar em outro corpo a parte de nós mesmos que perdemos pelo caminho. Fechei o livro. O poema continuava ali. Encarei o abismo e conversei com ele.
Charro Sendero

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