quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O chão debaixo de mim

Estacionamos na Praia da Vila. As ondas quebravam com uma fúria sagrada; estilhaços de heavy metal aquático espancando a costa. Ali, de joelhos na areia, vendo os surfistas flutuarem na espuma como santos modernos, gostava da mecânica daquele mistério. O mar vencendo sem violência. É silencioso em sua essência, mas contesta as perguntas e vem aos que O chamam. Ele — em pura tranquilidade — controla tudo, escolhendo as pessoas para Ele mesmo.

De repente, a água congelante da primeira marola me rasou os tornozelos. O vento da Praia da Vila veio junto, cortando o rosto com o cheiro acre de sal e iodo. Enterrei as mãos na areia grossa, sentindo os grãos sob as unhas enquanto o mar recuava, puxando o chão debaixo de mim. Era a pista de que o tempo ali havia esgotado; hora de seguir.

         Charro Sendero 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Luz Amarela, depois da Fábrica.

A minha paixão incurável é esta: a de não ter nada por que me apaixonar, e achar que isso basta. O que alguns chamam de amor é uma pressa em inventar mistérios onde só existe espaço, e eu prefiro o espaço. Olho para a noite e não procuro nela uma amante ou uma melodia; a noite é só o céu que ficou escuro porque o sol se deitou por trás das colinas, e ter paixão por ela é apenas aceitar que ela mude de cor sem me pedir licença. Seguro meu candeeiro e sua luz amarela não carrega saudades nem promessas; são lumes traçando  fios, lembrança que começa e logo deixa de ser. Sinto o cheiro do ar da noite, escuto o seu silêncio que é apenas o cansaço do mundo, e sinto-me feliz por não querer que a noite seja outra coisa. Minha alma tem a simplicidade de um canário da terra pousado no fio. Não amar nada com o pensamento, e amar tudo apenas com os olhos abertos, é a única paixão que me cura de... Envelhecer. A noite passa por mim sem me prometer nada, e eu a recebo sem lhe pedir nada; somos dois conhecidos que se cruzam no escuro e acham que o mundo está perfeito assim.
Charro Sendero

O som da água e os ruídos industriais

 

Charro Sendero

Aquele lugar está vivo



                               

                                    Charro Sendero

Big Boy, no Cavern Club de hoje!

  Uma viagem ao quarto da casa 4 Ontem, depois de algumas longnecks e de uma dessas conversas inúteis que às vezes salvam a noite, resolvi v...