Esqueça os calendários
Eu andei demais para acreditar em números impressos num pedaço de papel. Deixe-me contar uma história que não aconteceu comigo. Ou talvez tenha acontecido, naquelas noites em que a última cerveja me fazia inventar milagres para não morrer de tédio.
Tudo começa no Baixo Grande, em São Pedro D'Aldeia. Um lugar suspenso no tempo, onde a brisa bate forte e o som cortante das casuarinas parece o assovio das flechas de taquara dos Matarunas. Uma terra cercada por esqueléticos cata-ventos, que giram devagar, moendo o próprio tempo.
Ali vivia um canoeiro. Não me pergunte o seu nome. As histórias antigas são implacáveis: elas guardam o nome de quem amamos e deixam o resto para o esquecimento.
Ele saía todas as madrugadas para arrancar a vida da Lagoa Maracanã. Em suas mãos calejadas remava com o cambão, uma extensão dos seus próprios braços. Ele conhecia o segredo das águas e sabia onde encontrar o carapicu e a perumbeba, deliciosos peixes humildes.
E havia aquela mulher esperando por ele.
Meu Deus, aquela mulher. Ela não precisava de espelho, não precisava de nada que o dinheiro pudesse comprar. Era uma moça da restinga, esculpida a tapa pelo vento sudoeste, pela maresia. Uma beleza de presença pura. O canoeiro havia se casado com ela por amor. Um erro terrível. Naquele tempo, como agora, amar de verdade exige muita coragem.
A pesca era o sustento dos dois. Ele entrava na lagoa antes do dia nascer, enquanto no breu voavam as corujas orelhudas, e sua amada ficava na margem, acompanhando com os olhos a partida da canoa. Todas as noites. Ela esperava. Ele partia. E de manhã, quando o homem voltava exausto e cheirando a salina, havia café esperando por ele. Café forte, fumegante. Torradas com queijo de cura, comida da terra que não precisava de nomes bonitos para acalmar a fome.
Era assim que eles se amavam. Sem grandes discursos e, o mundo, por algumas horas, parecia uma engrenagem perfeita e sagrada.
Até que, certa madrugada, ele partiu. E não voltou. Nunca mais.
Não teve choro de velório, nenhuma explicação convincente nos causos de pescadores. A lagoa engoliu o homem. E ela engoliu a espera, indo até a lagoa todas as noites. Como se o tempo tivesse parado e ainda fosse acompanhá-lo na partida. Ficava ali, com as garças brancas de testemunhas, olhando para a imensidão escura. E cantava. Sua voz subia pelas estrelas, rasgada de saudade:
"Vai, canoeiro, pras ondas do mar, vai, canoeiro, canoeirar."
Cantava para a lagoa. Cantava para a canoa que já não existia. Cantava para onde os vivos não podiam chegar.
E a Lua, que observa a miséria e a grandeza dos grandes amores, teve compaixão. Mas naquela noite era Lua Crescente. Só havia um arco de brilho no céu. Então a Lua, num gesto de pura misericórdia, esfarrapou o pouco que lhe restava de luz. Só um tiquinho. O suficiente para um pobre milagre.
E prateou o Canoeiro.
A mulher o viu novamente. Primeiro, uma claridade mística sobre a água, luzindo na escuridão da Lagoa Maracanã. Depois, o contorno da canoa. Depois, o homem. Não de carne e osso, mas como uma memória feita de lume anilado. Ele remava devagar. Sem pressa. Como quem finalmente encontrou a eternidade e não precisava mais chegar a lugar nenhum.
Ela cantava à margem, com o coração em frangalhos e chorando de alegria: "Vai, canoeiro, pras ondas do mar..."
Desde então, dizem que, nas noites de Lua Crescente, o Canoeiro Prateado retorna. A Lua, feita cúmplice daquele amor desesperado, devolve-lhe o brilho, e ele passa pela água feito uma lembrança que se recusou a morrer.
Alguns dizem que é visagem. Outros dizem que é reflexo, ou apenas o luar pregando peças na água. Eu não discuto com essas pessoas de alma seca. Penso que cada um precisa da explicação que consiga carregar no peito para não enlouquecer.
Portanto, se você estiver um dia na Lagoa Maracanã, numa noite escura, fique quieto. Esqueça o barulho do mundo e ouça as casuarinas. Não leve medo. Não leve o seu telefone para tirar fotografias. Não leve perguntas. Leve apenas aquilo que a mulher do canoeiro carregou durante todos aqueles anos de solidão:
Um amor de enlouquecer.
Talvez você veja uma canoa prateada atravessando o silêncio da água. Talvez escute um sopro de voz cantando na areia cheia de conchas. E, se tiver o coração limpo, compreenderá que algumas pessoas nunca desaparecem de verdade. Elas apenas aprendem outro jeito de voltar.




