domingo, 1 de novembro de 2026

Big Boy, no Cavern Club de hoje!


 



Uma viagem ao quarto da casa 4

Ontem, depois de algumas longnecks e de uma dessas conversas inúteis que às vezes salvam a noite, resolvi voltar ao quarto casa 4, na Vila João Monteiro. Não sei exatamente por quê. Talvez porque certas viagens não precisem de passagem, apenas de uma cerveja e alguma disposição para mexer nos escombros da memória.

Havia um pôster de futebol, outro da Raquel Welch, um Forte Apache e meu Mitsubishi Electric Six Transistor. Um radinho de pilha. Pequeno, quadrado, meio vagabundo, mas com uma vocação para o infinito. Quando ligado, produzia um chiado cinzento, uma espécie de neblina elétrica que antecedia os milagres.

Naqueles dias, o mundo não cabia na palma da mão. Era preciso procurá-lo. Às vezes, ele vinha de muito longe, atravessando tempestades atmosféricas, interferências e fronteiras invisíveis, até desembarcar numa caixinha de plástico que esquentava depois de algumas horas de funcionamento e cheirava a metal, suor e mistério.

Era sábado à noite. Um garoto girava o dial da Rádio Mundial AM com a concentração de quem desarma uma bomba. Os 860 kHz. Uma frequência, um destino, uma pequena obsessão. De repente, a estática cedia lugar a uma explosão sonora.

— HELLO, CRAZY PEOPLE!

Era Big Boy.

Aquela voz não tinha nada a ver com os adultos da televisão, os professores da escola ou os sujeitos que apareciam nos jornais para explicar como o mundo deveria funcionar. Big Boy falava outra língua. Uma língua elétrica, apressada, sem pedir licença. Quando começava o Cavern Club, o quarto da casa 4 deixava de ser um endereço perdido no Brasil e se transformava num anexo clandestino de Liverpool.

Foi ali, escorado na cama ou disputando campeonatos de futebol de botão, que os Beatles entraram pela primeira vez na vida daquele guri.

Os quatro rapazes de Liverpool já haviam desmontado a própria banda, mas suas canções continuavam circulando pelo planeta como garrafas lançadas ao mar por náufragos que ainda acreditavam em alguma coisa. As guitarras, as harmonias, aquelas vozes que pareciam ter descoberto um atalho para o futuro. Tudo chegava pelo rádio, trazido de contrabando afetivo nas malas de discos importados do disc jockey Newton Duarte, o Big Boy.

Ele era uma espécie de internet ambulante, antes que alguém inventasse a internet. Garimpava novidades, rompia a liturgia da locução radiofônica e entregava à molecada um mundo que os adultos sequer suspeitavam existir.

Não havia playlists personalizadas, recomendações automáticas ou algoritmos tentando adivinhar nossos desejos. Havia um sujeito do outro lado do rádio, uma frequência caprichosa e um adolescente disposto a esperar. Não sabíamos quando viria a próxima música, muito menos qual seria. E talvez estivesse aí a grande aventura: não tínhamos controle sobre o que iríamos descobrir.

Hoje, podemos ouvir toda a discografia dos Beatles enquanto esperamos o elevador, atravessamos uma avenida ou fingimos prestar atenção numa reunião. A música tornou-se absolutamente disponível, democraticamente empacotada e instantaneamente descartável. Temos o mundo inteiro ao alcance dos dedos, mas parece que desaprendemos a bater à porta.

Eliminamos a distância, a escassez e a espera. Só esquecemos que a espera é o oxigênio do desejo. Quando tudo está disponível, nada parece urgente. Quando podemos ouvir qualquer coisa a qualquer momento, talvez já não saibamos ouvir coisa alguma.

Walter Benjamin provavelmente teria alguma consideração sobre aquele garoto e seu radinho de pilha. A aura, a experiência irrepetível, a presença de alguma coisa que acontece uma única vez. Uma música transmitida pelo rádio AM não era simplesmente reproduzida: acontecia. Se você perdesse aquele instante, dançasse no quintal, fosse buscar um copo d'água ou simplesmente estivesse distraído, a canção desaparecia no éter. Não havia botão para voltar. O chiado fazia parte da experiência. Era a própria geografia do som, a evidência de que alguma coisa estava viajando por quilômetros de atmosfera para chegar até você.

E havia uma estranha comunhão naquela solidão. Um menino sozinho num quarto, segurando uma caixinha de plástico perto do ouvido, sabia, sem precisar de estatísticas, que milhares de outros malucos estavam fazendo exatamente a mesma coisa. Gente espalhada pelo país, talvez pelo mundo, conectada por uma frequência que não exigia senha, cadastro ou autorização dos pais. O rádio nos deixava sozinhos sem nos fazer sentir solitários.

Hoje estamos conectados a milhões de pessoas e frequentemente não conseguimos conversar com quem está sentado à nossa frente. Construímos redes gigantescas para compartilhar nossas pequenas solidões, enquanto os algoritmos trabalham diligentemente para nos convencer de que o mundo inteiro pensa como nós.

O velho rádio fazia o contrário. Não escolhia o que deveríamos ouvir. Apenas abria uma janela e deixava o vento entrar.

Ontem, depois de algumas longnecks, voltei ao quarto da casa 4. Não encontrei o pôster de futebol, nem a Raquel Welch, nem o Forte Apache. O Mitsubishi Electric Six Transistor também desapareceu há muito tempo. Provavelmente foi parar num antiquário ou na memória de alguém que já não se lembra dele.

Mas ainda consigo ouvir aquele chiado cinzento.

E, quando a noite fica suficientemente silenciosa, uma voz atravessa os escombros do tempo, dá uma gargalhada e grita:

— HELLO, CRAZY PEOPLE!

Acho que era assim que começava tudo. Não com uma resposta, mas com uma frequência. Não com a certeza de encontrar alguma coisa, mas com a deliciosa possibilidade de encontrá-la por acaso.

Talvez crescer seja isso: passar a vida inteira tentando sintonizar novamente aquele rádio.

E que se danem os algoritmos. Ainda somos alguns milhões de malucos procurando uma estação no escuro.

Charro Sendero

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O gaúcho que não era

O gaúcho entrou na história
montado num cavalo alheio.

A revolução era dos homens,
mas o couro ficou para o campeiro.

Tinha carioca no comando,
mineiro fazendo discurso,
italiano puxando o gatilho,
uruguaio cuidando do percurso.

Até gringo tinha na guerra.
Só não tinha lugar
para o gaúcho.

Esse, coitado,
era gaúcho demais
para sentar à mesa.

Depois vieram os retratos,
as bombachas, os feriados,
o orgulho emoldurado
e a história passada a limpo
com tinta de churrasco.

Inventaram uma guerra
de gaúchos contra brasileiros.

Curioso:
os brasileiros eram tantos
que até os gaúchos
precisaram ser importados.

Hoje, na tribuna,
um sujeito cospe ódio
contra quem veio de longe.

Defende uma revolução
cujos chefes vieram de longe.

A história tem dessas coisas:
às vezes o sujeito
cospe no próprio retrato
sem perceber
que está cuspindo no espelho.

E o gaúcho?

Continua lá fora,
na chuva,
cuidando do cavalo
de quem escreveu a história.

Charro Sendero

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Charro Sendero


 


...Quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente." 
Riobaldo Tatarana

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Entre o sonho e o aluguel - Algumas considerações pouco acadêmicas sobre Pergunte ao Pó!




Abri uma longneck. Depois abri outra. Na terceira, Arturo Bandini já estava sentado na minha frente, gesticulando como um italiano ofendido, dizendo que era um grande escritor, que o mundo não o compreendia e que, francamente, merecia muito mais da vida.

Olhei para ele. Olhei para a garrafa. Olhei novamente para Bandini.
— Cara — eu disse —, você mora num quarto de hotel, está duro, não consegue conversar com uma mulher sem estragar tudo e continua achando que o universo está em dívida com você.
Bandini me olhou com desprezo. Arturo Bandini é esse jovem escritor que vive em Los Angeles com uma fome monumental: fome de dinheiro, de reconhecimento, de mulheres, de literatura e, principalmente, fome de ser alguém. Não alguém qualquer. Alguém g-r-a-n-d-e.
Aí começa o problema. Todo jovem sonhador acredita que nasceu para a grandeza, mas Bandini leva isso um pouco longe demais. O sujeito parece ter sido colocado no mundo com uma carta de reclamação já escrita no bolso: “Eu não pedi para nascer.”
Não, Arturo. Mas agora que nasceu, talvez fosse bom pagar o aluguel.
Bandini vive in Bunker Hill, numa Los Angeles que está muito longe daquela cidade glamorosa prometida pelos sonhos. Ele sonhava com mulheres luxuosas, casacos caros, bares elegantes, coquetéis, sucesso. Provavelmente imaginava entrar num lugar e ouvir alguém anunciar: “Senhoras e senhores… Arturo Bandini”.
E todos se levantariam. Uma mulher desmaiaria. Outra tiraria o casaco de pele. Um editor deixaria cair um cheque.
Mas a realidade tinha outros planos. A realidade sempre tem e normalmente são planos bem menos interessantes. Bandini está pobre. Miseravelmente pobre. É escritor, ou pelo menos está tentando ser, o que, em determinados períodos da vida, é uma maneira bastante sofisticada de dizer: “Estou desempregado, mas tenho uma máquina de escrever.”
É aí que aparece Camilla Lopez. E aqui, meus amigos, John Fante começa a se divertir às custas de Arturo Bandini.
Camilla trabalha no Columbia Buffet. É mexicana, garçonete e bonita. E, para o desespero absoluto do nosso aspirante a gênio, não está nem um pouco impressionada com Arturo Bandini. Essa é a primeira grande tragédia do rapaz. A segunda é que ele não sabe lidar com a primeira.
Bandini deseja Camilla, mas deseja como quem deseja uma estrela: de longe, com sofrimento, com poesia, com orgulho e com uma quantidade absolutamente impressionante de decisões erradas. Ele é o tipo do cara que, quando finalmente encontra a mulher que deseja, começa imediatamente a procurar uma maneira de estragar tudo. E Arturo Bandini tem muito talento para isso. Talvez seja o único talento que, no começo do romance, ele realmente domina.
Há uma coisa profundamente irritante em Bandini, e é justamente por isso que ele é tão interessante. Ele é arrogante porque é inseguro. É cruel porque está assustado. É vaidoso porque tem medo de não ser ninguém. E despreza aquilo que deseja.
Essa é uma antiga doença humana. Bandini se sente inferior e, para aplacar essa inferioridade, procura alguém que possa colocar abaixo de si. Camilla, por ser mexicana, acaba recebendo boa parte dessa estupidez. As huaraches dela, aquelas velhas sandálias de couro, tornam-se uma espécie de obsessão. Bandini olha para os sapatos e enxerga uma oportunidade para se sentir superior.
É um mecanismo tão cafona quanto ridículo. O homem não sabe quem é, então resolve explicar para os outros quem são:
— Você é isso. Você é aquilo. Eu sou americano. Você é mexicana.
E pronto. Por alguns minutos, Arturo Bandini se sente maior. Até Camilla abrir a boca.
Porque Camilla Lopez não é uma personagem criada para facilitar a vida do protagonista. Graças a Zeus. Ela não está ali para admirar o escritor, não está esperando que Arturo Bandini a salve e não está interessada na grandeza que ele enxerga em si mesmo. Camilla olha para Bandini e, aparentemente, pensa: “Esse sujeito é um idiota.”
E, sinceramente? Nem sempre ela está errada.
Então acontece o milagre. Um editor escreve. Um conto será publicado. Há um cheque. E Bandini, que até então estava a poucos passos de morrer pobre, desconhecido e dramaticamente convencido de sua própria genialidade, recebe uma prova concreta de que talvez, apenas talvez, ele realmente saiba escrever.
Aqui John Fante nos mostra uma das coisas mais bonitas de “Pergunte ao Pó”. Um escritor pode passar meses duvidando de si mesmo. Pode estar faminto, ser rejeitado, ser ignorado, ter o quarto ameaçado pelo aluguel. Mas basta uma carta. Uma. Uma carta dizendo: “Parece-me que o senhor fez um belo trabalho.”
Pronto. O homem ressuscita. Bandini volta ao Columbia Buffet com a autoestima de quem acaba de descobrir que Deus pessoalmente assinou seu contrato editorial. Agora ele tem dinheiro. Agora ele é publicável. Agora, naturalmente, Camilla Lopez deve cair aos seus pés.
Essa conclusão não foi confirmada por Camilla.
E é justamente aí que eu comecei a gostar do cara. Contra a minha vontade. Porque ele é ridículo. Mas todos nós fomos ridículos. A diferença é que John Fante teve a delicadeza de registrar o ridículo de Bandini numa máquina de escrever.
Bandini quer ser amado, quer ser escritor, quer ser americano, quer ser homem, quer ser importante e não sabe exatamente como ser nenhuma dessas coisas. Ele está no meio da vida antes de saber como vivê-la.
A juventude é essa estranha época em que uma carta pode nos transformar em reis e uma mulher indiferente pode nos convencer de que o universo inteiro perdeu o sentido. Bandini recebe um cheque e acredita que conquistou o mundo; Camilla sai com outro homem e ele volta a ser um miserável. A estabilidade emocional dele caberia numa colher de chá.
Depois há a praia. Santa Mônica. A noite. O mar. Camilla. Bandini. E os dois nadando nus.
Agora, qualquer sujeito sensato diria: “Arturo, meu rapaz… pare de pensar.” Mas Bandini é escritor. E escritores têm essa capacidade extraordinária de transformar um momento perfeito numa reunião interna.
Enquanto a vida acontece, o sujeito está analisando a vida. Enquanto a mulher está ali, ele está pensando na história que publicou. Enquanto o corpo existe, ele está discutindo identidade. Enquanto Camilla se aproxima, Arturo Bandini provavelmente está em algum lugar dentro da própria cabeça perguntando: “Mas o que significa ser americano?”
Arturo. Pelo amor de Deus. Você está nu no Pacífico. Volte para a Terra.
Camilla, naturalmente, começa a se afastar. E Bandini faz aquilo que homens desesperados fazem desde que inventaram o papel: escreve. Poemas, cartas, telegramas, declarações.
Provavelmente, se tivesse WhatsApp, mandaria:
“Oi.”
Dois minutos depois: “Está tudo bem?”
Cinco minutos depois: “Eu fiz alguma coisa?”
Dez minutos depois: “Você está estranha.”
Felizmente, John Fante viveu numa época em que a tecnologia ainda impunha algum custo financeiro ao desespero amoroso. Cada telegrama precisava ser pago. Isso talvez tenha salvado muitas relações.
Quando Bandini vê Camilla saindo com Sammy, o barman, seu mundo desaba. Naturalmente. Porque Bandini havia imaginado Camilla. Mas Camilla tinha a péssima mania de existir por conta própria.
E isso é uma das coisas mais dolorosas de “Pergunte ao Pó”. Nós imaginamos as pessoas. Criamos versões delas.
Não costumo culpar o universo por ter me colocado no mundo. E, se uma mulher me disser que sou arrogante, provavelmente pedirei outra cerveja antes de responder. Bandini não é a projeção dos meus sonhos. Mas eu reconheço nele uma coisa perigosa: o sonhador.
Porque todo sonhador, em algum momento, acha que nasceu para alguma coisa maior. E talvez tenha nascido. O problema é o intervalo entre essa certeza e a realidade. Entre uma longneck e o próximo aluguel. É ali que moramos. Entre o sonho e o aluguel. Entre a mulher ideal e a mulher real.
Entre o conto que escrevemos e o editor que ainda não respondeu. Entre o desejo de ser grande e a absoluta falta de provas de que somos. Bandini mora nesse intervalo. E Fante o acompanha sem piedade.
No final, fechei “Pergunte ao Pó”, olhei para a última longneck e pensei que talvez tivesse sido injusto com Arturo. Bandini é um jovem tentando descobrir quem é. Só que faz isso da pior maneira possível: em público.
John Fante teve a genialidade de transformar suas misérias em literatura. E talvez essa seja uma das grandes lições do livro. Viver não basta. Sofrer não basta. Amar não basta. Ser pobre não basta. Ser rejeitado por Camilla Lopez também não basta — embora, para Arturo Bandini, isso certamente tenha parecido suficiente para escrever uma enciclopédia.
É preciso transformar tudo isso. A vida é apenas a matéria-prima. O escritor precisa encontrar o fogo. E John Fante encontrou. Por isso “Pergunte ao Pó” continua respirando. Por isso Arturo Bandini continua vivo. No fim das contas, ele provavelmente sabe mais do que nós.
E por isso, depois de algumas longnecks, recomendo: Leia John Fante. Leia “Pergunte ao Pó”. Mas não tente ser Arturo Bandini. O mundo já tem jovens arrogantes, tolos e convencidos de que merecem mais do que receberam.
Seja outra coisa. Ou, pelo menos, pague a próxima cerveja. E, se tiver alguma dúvida sobre a vida, o amor, a literatura ou Arturo Bandini…
Pergunte ao pó.
Charro Sendero






terça-feira, 6 de outubro de 2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Canto da Dona da Pensão

 

Que me perdoem as musas abstratas da Capital
mas a beleza real é essa que me assombra no corredor deste lugar.
Parei. O mundo lá fora, com o bonde e a poeira, fez-se silêncio,
porque no batente daquela porta desabava a minha arquitetura de homem.
Olhei-te o colo, onde a tarde parece descansar o seu calor mais terno,
uma planície clara que acolhe o balancear dos teus seios soberanos.
Subi pelos teus ombros, fortes de carregar as contas e os dias,
mas desenhados com uma delicadeza tão sinuosa que o beijo se fazia incandescente.
E mais abaixo, a linha firme e generosa das tuas coxas,
emoldurando o desenho suave de teu ventre, raízes de um desejo sagrado.
E então vi teus cabelos curtos.
Cortados lisos, com a firmeza de quem corta o próprio erotismo, numa tentativa vã de diluir o mistério, de fazer-se apenas dama, nunca fêmea.
Mas que doce engano o teu, Dona Santana...
Esse corte que pretendia esconder é o que mais te desnuda.
É o que deixa livre o traço altivo do teu pescoço,
transformando a tua esquiva no mais devastador dos convites.
Ali, diante do teu olhar voltado para o nada,
Senti que a carne é poesia e que o mistério não se esconde.
Tu és a dona da casa, mas és, acima de tudo, a dona de devaneios
nessa madrugada de um tempo que não sei contar,
onde a vontade me pegou de surpresa, desarmado de poder, no meio do caminho e me ferveu o sangue.
Charro Sendero

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Siderúrgica Hime

O Portal Em Arco de Madeira



O cheiro de tempero e carne assada escapava pelas portas da cantina e se espalhava pela avenida poeirenta em frente à siderúrgica Hime. Era esse aroma caseiro que guiava os meus passos naquela tarde; eu estava faminto, com uma fome que vinha de dias. Ao atravessar o portal em arco de madeira, entrei em um salão barulhento, tomado por mesas forradas de toalha xadrez vermelha e branca. Sobre cada uma delas, repousavam duas lustrosas longas garrafas: uma de farinha de mandioca e outra de pimenta curtida.
O movimento ali dentro seguia o ritmo dos relógios da fábrica. Os operários entravam e saíam em um fluxo contínuo de uniformes sujos de fuligem, divididos pela hierarquia visual de seus capacetes. Havia cores para cada grupo, cada setor, cada nível de perigo. Encontrei um lugar vago no balcão, ao lado de dois homens que usavam capacetes brancos e alternavam goles generosos em canecas de vinho tinto antes do almoço chegar.
O diálogo deles me fisgou imediatamente pela profundidade do descontentamento. Eu nunca tinha ouvido uma conversa tão severa, tão técnica e, ao mesmo tempo, tão revoltada sobre fundição e laminação.
— O sacana da engenharia queria que os rapazes mudassem o resfriamento dos tarugos no gogó, Macêdo — disse o mais jovem, Vianna, gesticulando com a mão segurando cigarro. 

— Ele olha para o gráfico e acha que o aço entende de matemática. Se a velocidade de laminação não casar com a temperatura da mesa de saída, a gente vai entregar uma folha cheia de trinca interna para os paulistas.
O outro homem, mais bruto, de ombros largos e mãos que pareciam pedaços de ferro fundido, limpou a boca com guardanapos. Seu nome era citado por quase todos que entravam na cantina. Era uma procissão de respeito: "Boa tarde, Macêdo", ou "Como vai, Macêdo?". Ele apenas acenava, com a autoridade de quem conhecia cada milímetro daquela siderúrgica.
— Engenheiro acha que o forno é um fogão de cozinha, Vianna. Disse Macêdo, com a voz grave ecoando por cima do barulho dos pratos. 
— Eles mudam a liga no papel e acham que o convertedor vai aceitar sem cuspir fogo na cara de ninguém. Na semana passada, queriam reduzir o tempo de vazamento. Eu avisei: o metal não estava pronto, a escória ainda estava densa. Não me ouviram. O resultado? O canal entupiu e perdemos muito de corrida. Eles não sentem o calor da boca do forno; eles só veem números.

Fiquei ali, imóvel, fingindo olhar para as garrafas de farinha e pimenta na mesa da frente, mas absorvendo cada palavra. Havia uma dignidade assustadora na forma como defendiam o próprio ofício contra a teoria dos escritórios. Era intuição deles. Vem junto com a natureza de cada um e o conhecimento verdadeiro coloca no mesmo plano. Mas o que me moveu até aquele refeitório foi exatamente isso: o choque sensorial daquela conversa, a presença rústica daqueles caras de capacetes coloridos e a realidade palpável da fundição impregnada no ar.
Pensei em pedir emprego, mas o respeito que aquela conversa me impunha travou a garganta. Comi aquele prato feito e fui para o terminal hidroviário. Depois de meia hora, embarquei na Ipanema, caminhei até a proa, acendi um cigarro diante das águas escuras da Guanabara, que pareciam convidar propícios pensamentos sobre o meu destino; aquela intuição sensível da cantina se transformou em decisão. O cheiro do ferro, o som das águas e os ruídos industriais ainda ecoavam em mim. Podia ver sem esforço o que me fazia precisar voltar à Siderúrgica Hime.

Charro Sendero

Big Boy, no Cavern Club de hoje!

  Uma viagem ao quarto da casa 4 Ontem, depois de algumas longnecks e de uma dessas conversas inúteis que às vezes salvam a noite, resolvi v...