domingo, 1 de novembro de 2026

Big Boy, no Cavern Club de hoje!


 



Uma viagem ao quarto da casa 4

Ontem, depois de algumas longnecks e de uma dessas conversas inúteis que às vezes salvam a noite, resolvi voltar ao quarto casa 4, na Vila João Monteiro. Não sei exatamente por quê. Talvez porque certas viagens não precisem de passagem, apenas de uma cerveja e alguma disposição para mexer nos escombros da memória.

Havia um pôster de futebol, outro da Raquel Welch, um Forte Apache e meu Mitsubishi Electric Six Transistor. Um radinho de pilha. Pequeno, quadrado, meio vagabundo, mas com uma vocação para o infinito. Quando ligado, produzia um chiado cinzento, uma espécie de neblina elétrica que antecedia os milagres.

Naqueles dias, o mundo não cabia na palma da mão. Era preciso procurá-lo. Às vezes, ele vinha de muito longe, atravessando tempestades atmosféricas, interferências e fronteiras invisíveis, até desembarcar numa caixinha de plástico que esquentava depois de algumas horas de funcionamento e cheirava a metal, suor e mistério.

Era sábado à noite. Um garoto girava o dial da Rádio Mundial AM com a concentração de quem desarma uma bomba. Os 860 kHz. Uma frequência, um destino, uma pequena obsessão. De repente, a estática cedia lugar a uma explosão sonora.

— HELLO, CRAZY PEOPLE!

Era Big Boy.

Aquela voz não tinha nada a ver com os adultos da televisão, os professores da escola ou os sujeitos que apareciam nos jornais para explicar como o mundo deveria funcionar. Big Boy falava outra língua. Uma língua elétrica, apressada, sem pedir licença. Quando começava o Cavern Club, o quarto da casa 4 deixava de ser um endereço perdido no Brasil e se transformava num anexo clandestino de Liverpool.

Foi ali, escorado na cama ou disputando campeonatos de futebol de botão, que os Beatles entraram pela primeira vez na vida daquele guri.

Os quatro rapazes de Liverpool já haviam desmontado a própria banda, mas suas canções continuavam circulando pelo planeta como garrafas lançadas ao mar por náufragos que ainda acreditavam em alguma coisa. As guitarras, as harmonias, aquelas vozes que pareciam ter descoberto um atalho para o futuro. Tudo chegava pelo rádio, trazido de contrabando afetivo nas malas de discos importados do disc jockey Newton Duarte, o Big Boy.

Ele era uma espécie de internet ambulante, antes que alguém inventasse a internet. Garimpava novidades, rompia a liturgia da locução radiofônica e entregava à molecada um mundo que os adultos sequer suspeitavam existir.

Não havia playlists personalizadas, recomendações automáticas ou algoritmos tentando adivinhar nossos desejos. Havia um sujeito do outro lado do rádio, uma frequência caprichosa e um adolescente disposto a esperar. Não sabíamos quando viria a próxima música, muito menos qual seria. E talvez estivesse aí a grande aventura: não tínhamos controle sobre o que iríamos descobrir.

Hoje, podemos ouvir toda a discografia dos Beatles enquanto esperamos o elevador, atravessamos uma avenida ou fingimos prestar atenção numa reunião. A música tornou-se absolutamente disponível, democraticamente empacotada e instantaneamente descartável. Temos o mundo inteiro ao alcance dos dedos, mas parece que desaprendemos a bater à porta.

Eliminamos a distância, a escassez e a espera. Só esquecemos que a espera é o oxigênio do desejo. Quando tudo está disponível, nada parece urgente. Quando podemos ouvir qualquer coisa a qualquer momento, talvez já não saibamos ouvir coisa alguma.

Walter Benjamin provavelmente teria alguma consideração sobre aquele garoto e seu radinho de pilha. A aura, a experiência irrepetível, a presença de alguma coisa que acontece uma única vez. Uma música transmitida pelo rádio AM não era simplesmente reproduzida: acontecia. Se você perdesse aquele instante, dançasse no quintal, fosse buscar um copo d'água ou simplesmente estivesse distraído, a canção desaparecia no éter. Não havia botão para voltar. O chiado fazia parte da experiência. Era a própria geografia do som, a evidência de que alguma coisa estava viajando por quilômetros de atmosfera para chegar até você.

E havia uma estranha comunhão naquela solidão. Um menino sozinho num quarto, segurando uma caixinha de plástico perto do ouvido, sabia, sem precisar de estatísticas, que milhares de outros malucos estavam fazendo exatamente a mesma coisa. Gente espalhada pelo país, talvez pelo mundo, conectada por uma frequência que não exigia senha, cadastro ou autorização dos pais. O rádio nos deixava sozinhos sem nos fazer sentir solitários.

Hoje estamos conectados a milhões de pessoas e frequentemente não conseguimos conversar com quem está sentado à nossa frente. Construímos redes gigantescas para compartilhar nossas pequenas solidões, enquanto os algoritmos trabalham diligentemente para nos convencer de que o mundo inteiro pensa como nós.

O velho rádio fazia o contrário. Não escolhia o que deveríamos ouvir. Apenas abria uma janela e deixava o vento entrar.

Ontem, depois de algumas longnecks, voltei ao quarto da casa 4. Não encontrei o pôster de futebol, nem a Raquel Welch, nem o Forte Apache. O Mitsubishi Electric Six Transistor também desapareceu há muito tempo. Provavelmente foi parar num antiquário ou na memória de alguém que já não se lembra dele.

Mas ainda consigo ouvir aquele chiado cinzento.

E, quando a noite fica suficientemente silenciosa, uma voz atravessa os escombros do tempo, dá uma gargalhada e grita:

— HELLO, CRAZY PEOPLE!

Acho que era assim que começava tudo. Não com uma resposta, mas com uma frequência. Não com a certeza de encontrar alguma coisa, mas com a deliciosa possibilidade de encontrá-la por acaso.

Talvez crescer seja isso: passar a vida inteira tentando sintonizar novamente aquele rádio.

E que se danem os algoritmos. Ainda somos alguns milhões de malucos procurando uma estação no escuro.

Charro Sendero

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O gaúcho que não era

O gaúcho entrou na história
montado num cavalo alheio.

A revolução era dos homens,
mas o couro ficou para o campeiro.

Tinha carioca no comando,
mineiro fazendo discurso,
italiano puxando o gatilho,
uruguaio cuidando do percurso.

Até gringo tinha na guerra.
Só não tinha lugar
para o gaúcho.

Esse, coitado,
era gaúcho demais
para sentar à mesa.

Depois vieram os retratos,
as bombachas, os feriados,
o orgulho emoldurado
e a história passada a limpo
com tinta de churrasco.

Inventaram uma guerra
de gaúchos contra brasileiros.

Curioso:
os brasileiros eram tantos
que até os gaúchos
precisaram ser importados.

Hoje, na tribuna,
um sujeito cospe ódio
contra quem veio de longe.

Defende uma revolução
cujos chefes vieram de longe.

A história tem dessas coisas:
às vezes o sujeito
cospe no próprio retrato
sem perceber
que está cuspindo no espelho.

E o gaúcho?

Continua lá fora,
na chuva,
cuidando do cavalo
de quem escreveu a história.

Charro Sendero

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Charro Sendero


 


...Quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente." 
Riobaldo Tatarana

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Entre o sonho e o aluguel - Algumas considerações pouco acadêmicas sobre Pergunte ao Pó!




Abri uma longneck. Depois abri outra. Na terceira, Arturo Bandini já estava sentado na minha frente, gesticulando como um italiano ofendido, dizendo que era um grande escritor, que o mundo não o compreendia e que, francamente, merecia muito mais da vida.

Olhei para ele. Olhei para a garrafa. Olhei novamente para Bandini.
— Cara — eu disse —, você mora num quarto de hotel, está duro, não consegue conversar com uma mulher sem estragar tudo e continua achando que o universo está em dívida com você.
Bandini me olhou com desprezo. Arturo Bandini é esse jovem escritor que vive em Los Angeles com uma fome monumental: fome de dinheiro, de reconhecimento, de mulheres, de literatura e, principalmente, fome de ser alguém. Não alguém qualquer. Alguém g-r-a-n-d-e.
Aí começa o problema. Todo jovem sonhador acredita que nasceu para a grandeza, mas Bandini leva isso um pouco longe demais. O sujeito parece ter sido colocado no mundo com uma carta de reclamação já escrita no bolso: “Eu não pedi para nascer.”
Não, Arturo. Mas agora que nasceu, talvez fosse bom pagar o aluguel.
Bandini vive in Bunker Hill, numa Los Angeles que está muito longe daquela cidade glamorosa prometida pelos sonhos. Ele sonhava com mulheres luxuosas, casacos caros, bares elegantes, coquetéis, sucesso. Provavelmente imaginava entrar num lugar e ouvir alguém anunciar: “Senhoras e senhores… Arturo Bandini”.
E todos se levantariam. Uma mulher desmaiaria. Outra tiraria o casaco de pele. Um editor deixaria cair um cheque.
Mas a realidade tinha outros planos. A realidade sempre tem e normalmente são planos bem menos interessantes. Bandini está pobre. Miseravelmente pobre. É escritor, ou pelo menos está tentando ser, o que, em determinados períodos da vida, é uma maneira bastante sofisticada de dizer: “Estou desempregado, mas tenho uma máquina de escrever.”
É aí que aparece Camilla Lopez. E aqui, meus amigos, John Fante começa a se divertir às custas de Arturo Bandini.
Camilla trabalha no Columbia Buffet. É mexicana, garçonete e bonita. E, para o desespero absoluto do nosso aspirante a gênio, não está nem um pouco impressionada com Arturo Bandini. Essa é a primeira grande tragédia do rapaz. A segunda é que ele não sabe lidar com a primeira.
Bandini deseja Camilla, mas deseja como quem deseja uma estrela: de longe, com sofrimento, com poesia, com orgulho e com uma quantidade absolutamente impressionante de decisões erradas. Ele é o tipo do cara que, quando finalmente encontra a mulher que deseja, começa imediatamente a procurar uma maneira de estragar tudo. E Arturo Bandini tem muito talento para isso. Talvez seja o único talento que, no começo do romance, ele realmente domina.
Há uma coisa profundamente irritante em Bandini, e é justamente por isso que ele é tão interessante. Ele é arrogante porque é inseguro. É cruel porque está assustado. É vaidoso porque tem medo de não ser ninguém. E despreza aquilo que deseja.
Essa é uma antiga doença humana. Bandini se sente inferior e, para aplacar essa inferioridade, procura alguém que possa colocar abaixo de si. Camilla, por ser mexicana, acaba recebendo boa parte dessa estupidez. As huaraches dela, aquelas velhas sandálias de couro, tornam-se uma espécie de obsessão. Bandini olha para os sapatos e enxerga uma oportunidade para se sentir superior.
É um mecanismo tão cafona quanto ridículo. O homem não sabe quem é, então resolve explicar para os outros quem são:
— Você é isso. Você é aquilo. Eu sou americano. Você é mexicana.
E pronto. Por alguns minutos, Arturo Bandini se sente maior. Até Camilla abrir a boca.
Porque Camilla Lopez não é uma personagem criada para facilitar a vida do protagonista. Graças a Zeus. Ela não está ali para admirar o escritor, não está esperando que Arturo Bandini a salve e não está interessada na grandeza que ele enxerga em si mesmo. Camilla olha para Bandini e, aparentemente, pensa: “Esse sujeito é um idiota.”
E, sinceramente? Nem sempre ela está errada.
Então acontece o milagre. Um editor escreve. Um conto será publicado. Há um cheque. E Bandini, que até então estava a poucos passos de morrer pobre, desconhecido e dramaticamente convencido de sua própria genialidade, recebe uma prova concreta de que talvez, apenas talvez, ele realmente saiba escrever.
Aqui John Fante nos mostra uma das coisas mais bonitas de “Pergunte ao Pó”. Um escritor pode passar meses duvidando de si mesmo. Pode estar faminto, ser rejeitado, ser ignorado, ter o quarto ameaçado pelo aluguel. Mas basta uma carta. Uma. Uma carta dizendo: “Parece-me que o senhor fez um belo trabalho.”
Pronto. O homem ressuscita. Bandini volta ao Columbia Buffet com a autoestima de quem acaba de descobrir que Deus pessoalmente assinou seu contrato editorial. Agora ele tem dinheiro. Agora ele é publicável. Agora, naturalmente, Camilla Lopez deve cair aos seus pés.
Essa conclusão não foi confirmada por Camilla.
E é justamente aí que eu comecei a gostar do cara. Contra a minha vontade. Porque ele é ridículo. Mas todos nós fomos ridículos. A diferença é que John Fante teve a delicadeza de registrar o ridículo de Bandini numa máquina de escrever.
Bandini quer ser amado, quer ser escritor, quer ser americano, quer ser homem, quer ser importante e não sabe exatamente como ser nenhuma dessas coisas. Ele está no meio da vida antes de saber como vivê-la.
A juventude é essa estranha época em que uma carta pode nos transformar em reis e uma mulher indiferente pode nos convencer de que o universo inteiro perdeu o sentido. Bandini recebe um cheque e acredita que conquistou o mundo; Camilla sai com outro homem e ele volta a ser um miserável. A estabilidade emocional dele caberia numa colher de chá.
Depois há a praia. Santa Mônica. A noite. O mar. Camilla. Bandini. E os dois nadando nus.
Agora, qualquer sujeito sensato diria: “Arturo, meu rapaz… pare de pensar.” Mas Bandini é escritor. E escritores têm essa capacidade extraordinária de transformar um momento perfeito numa reunião interna.
Enquanto a vida acontece, o sujeito está analisando a vida. Enquanto a mulher está ali, ele está pensando na história que publicou. Enquanto o corpo existe, ele está discutindo identidade. Enquanto Camilla se aproxima, Arturo Bandini provavelmente está em algum lugar dentro da própria cabeça perguntando: “Mas o que significa ser americano?”
Arturo. Pelo amor de Deus. Você está nu no Pacífico. Volte para a Terra.
Camilla, naturalmente, começa a se afastar. E Bandini faz aquilo que homens desesperados fazem desde que inventaram o papel: escreve. Poemas, cartas, telegramas, declarações.
Provavelmente, se tivesse WhatsApp, mandaria:
“Oi.”
Dois minutos depois: “Está tudo bem?”
Cinco minutos depois: “Eu fiz alguma coisa?”
Dez minutos depois: “Você está estranha.”
Felizmente, John Fante viveu numa época em que a tecnologia ainda impunha algum custo financeiro ao desespero amoroso. Cada telegrama precisava ser pago. Isso talvez tenha salvado muitas relações.
Quando Bandini vê Camilla saindo com Sammy, o barman, seu mundo desaba. Naturalmente. Porque Bandini havia imaginado Camilla. Mas Camilla tinha a péssima mania de existir por conta própria.
E isso é uma das coisas mais dolorosas de “Pergunte ao Pó”. Nós imaginamos as pessoas. Criamos versões delas.
Não costumo culpar o universo por ter me colocado no mundo. E, se uma mulher me disser que sou arrogante, provavelmente pedirei outra cerveja antes de responder. Bandini não é a projeção dos meus sonhos. Mas eu reconheço nele uma coisa perigosa: o sonhador.
Porque todo sonhador, em algum momento, acha que nasceu para alguma coisa maior. E talvez tenha nascido. O problema é o intervalo entre essa certeza e a realidade. Entre uma longneck e o próximo aluguel. É ali que moramos. Entre o sonho e o aluguel. Entre a mulher ideal e a mulher real.
Entre o conto que escrevemos e o editor que ainda não respondeu. Entre o desejo de ser grande e a absoluta falta de provas de que somos. Bandini mora nesse intervalo. E Fante o acompanha sem piedade.
No final, fechei “Pergunte ao Pó”, olhei para a última longneck e pensei que talvez tivesse sido injusto com Arturo. Bandini é um jovem tentando descobrir quem é. Só que faz isso da pior maneira possível: em público.
John Fante teve a genialidade de transformar suas misérias em literatura. E talvez essa seja uma das grandes lições do livro. Viver não basta. Sofrer não basta. Amar não basta. Ser pobre não basta. Ser rejeitado por Camilla Lopez também não basta — embora, para Arturo Bandini, isso certamente tenha parecido suficiente para escrever uma enciclopédia.
É preciso transformar tudo isso. A vida é apenas a matéria-prima. O escritor precisa encontrar o fogo. E John Fante encontrou. Por isso “Pergunte ao Pó” continua respirando. Por isso Arturo Bandini continua vivo. No fim das contas, ele provavelmente sabe mais do que nós.
E por isso, depois de algumas longnecks, recomendo: Leia John Fante. Leia “Pergunte ao Pó”. Mas não tente ser Arturo Bandini. O mundo já tem jovens arrogantes, tolos e convencidos de que merecem mais do que receberam.
Seja outra coisa. Ou, pelo menos, pague a próxima cerveja. E, se tiver alguma dúvida sobre a vida, o amor, a literatura ou Arturo Bandini…
Pergunte ao pó.
Charro Sendero






terça-feira, 6 de outubro de 2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Canto da Dona da Pensão

 

Que me perdoem as musas abstratas da Capital
mas a beleza real é essa que me assombra no corredor deste lugar.
Parei. O mundo lá fora, com o bonde e a poeira, fez-se silêncio,
porque no batente daquela porta desabava a minha arquitetura de homem.
Olhei-te o colo, onde a tarde parece descansar o seu calor mais terno,
uma planície clara que acolhe o balancear dos teus seios soberanos.
Subi pelos teus ombros, fortes de carregar as contas e os dias,
mas desenhados com uma delicadeza tão sinuosa que o beijo se fazia incandescente.
E mais abaixo, a linha firme e generosa das tuas coxas,
emoldurando o desenho suave de teu ventre, raízes de um desejo sagrado.
E então vi teus cabelos curtos.
Cortados lisos, com a firmeza de quem corta o próprio erotismo, numa tentativa vã de diluir o mistério, de fazer-se apenas dama, nunca fêmea.
Mas que doce engano o teu, Dona Santana...
Esse corte que pretendia esconder é o que mais te desnuda.
É o que deixa livre o traço altivo do teu pescoço,
transformando a tua esquiva no mais devastador dos convites.
Ali, diante do teu olhar voltado para o nada,
Senti que a carne é poesia e que o mistério não se esconde.
Tu és a dona da casa, mas és, acima de tudo, a dona de devaneios
nessa madrugada de um tempo que não sei contar,
onde a vontade me pegou de surpresa, desarmado de poder, no meio do caminho e me ferveu o sangue.
Charro Sendero

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Siderúrgica Hime

O Portal Em Arco de Madeira



O cheiro de tempero e carne assada escapava pelas portas da cantina e se espalhava pela avenida poeirenta em frente à siderúrgica Hime. Era esse aroma caseiro que guiava os meus passos naquela tarde; eu estava faminto, com uma fome que vinha de dias. Ao atravessar o portal em arco de madeira, entrei em um salão barulhento, tomado por mesas forradas de toalha xadrez vermelha e branca. Sobre cada uma delas, repousavam duas lustrosas longas garrafas: uma de farinha de mandioca e outra de pimenta curtida.
O movimento ali dentro seguia o ritmo dos relógios da fábrica. Os operários entravam e saíam em um fluxo contínuo de uniformes sujos de fuligem, divididos pela hierarquia visual de seus capacetes. Havia cores para cada grupo, cada setor, cada nível de perigo. Encontrei um lugar vago no balcão, ao lado de dois homens que usavam capacetes brancos e alternavam goles generosos em canecas de vinho tinto antes do almoço chegar.
O diálogo deles me fisgou imediatamente pela profundidade do descontentamento. Eu nunca tinha ouvido uma conversa tão severa, tão técnica e, ao mesmo tempo, tão revoltada sobre fundição e laminação.
— O sacana da engenharia queria que os rapazes mudassem o resfriamento dos tarugos no gogó, Macêdo — disse o mais jovem, Vianna, gesticulando com a mão segurando cigarro. 

— Ele olha para o gráfico e acha que o aço entende de matemática. Se a velocidade de laminação não casar com a temperatura da mesa de saída, a gente vai entregar uma folha cheia de trinca interna para os paulistas.
O outro homem, mais bruto, de ombros largos e mãos que pareciam pedaços de ferro fundido, limpou a boca com guardanapos. Seu nome era citado por quase todos que entravam na cantina. Era uma procissão de respeito: "Boa tarde, Macêdo", ou "Como vai, Macêdo?". Ele apenas acenava, com a autoridade de quem conhecia cada milímetro daquela siderúrgica.
— Engenheiro acha que o forno é um fogão de cozinha, Vianna. Disse Macêdo, com a voz grave ecoando por cima do barulho dos pratos. 
— Eles mudam a liga no papel e acham que o convertedor vai aceitar sem cuspir fogo na cara de ninguém. Na semana passada, queriam reduzir o tempo de vazamento. Eu avisei: o metal não estava pronto, a escória ainda estava densa. Não me ouviram. O resultado? O canal entupiu e perdemos muito de corrida. Eles não sentem o calor da boca do forno; eles só veem números.

Fiquei ali, imóvel, fingindo olhar para as garrafas de farinha e pimenta na mesa da frente, mas absorvendo cada palavra. Havia uma dignidade assustadora na forma como defendiam o próprio ofício contra a teoria dos escritórios. Era intuição deles. Vem junto com a natureza de cada um e o conhecimento verdadeiro coloca no mesmo plano. Mas o que me moveu até aquele refeitório foi exatamente isso: o choque sensorial daquela conversa, a presença rústica daqueles caras de capacetes coloridos e a realidade palpável da fundição impregnada no ar.
Pensei em pedir emprego, mas o respeito que aquela conversa me impunha travou a garganta. Comi aquele prato feito e fui para o terminal hidroviário. Depois de meia hora, embarquei na Ipanema, caminhei até a proa, acendi um cigarro diante das águas escuras da Guanabara, que pareciam convidar propícios pensamentos sobre o meu destino; aquela intuição sensível da cantina se transformou em decisão. O cheiro do ferro, o som das águas e os ruídos industriais ainda ecoavam em mim. Podia ver sem esforço o que me fazia precisar voltar à Siderúrgica Hime.

Charro Sendero

domingo, 13 de setembro de 2026

Praia Seca



Ficou para trás o sal, a fuligem dos domingos,
O raio de metal que cortava as águas mansas.
Ficou o amigo que cantava e inventava versos.
E o outro que guiava o ferro contra o vento.

Eu me despeço aqui, debruçado sobre o mapa,
Da terra que me deu seus olhos de lagoa.
Sei que nenhuma estrada inventará o retorno,
que a juventude é um pássaro de cinza.

Dói este adeus como dói o primeiro grito do parto,
Como pesa o silêncio quando a carne se apaga.
Deixo meu nome inscrito nas salinas da Praia Seca,
E levo comigo o exílio, a noite e a distância.

Charro Sendero

Tequila Sunrise

 


E então, vi Araruama pela última vez. Observar lugares provoca uma sensação estranha. Da mesma forma que você pode evitar palavras com um simples olhar, aquilo que você vê pode falar sem nada dizer. Passamos pelo Boqueirão como um raio de metal e fumaça; a velocidade purificava nossos pensamentos, limpava a fuligem daqueles sonhos de verão. Paramos para pegar Morcego Willis, o dono da Rural, na casa de uma jovem garota. Navi perguntou:

— E aí, Morcego, como você está?
— Willis Reginis! — ele disse e cantarolou: — E um bêbado trajando luto. Me lembrou Carlitos...

Ele tinha essa mania de responder com músicas. Sempre esculhambando o nome do cantor.

De volta ao asfalto, a Rural cortava a rodovia de pista simples, espremida entre as montanhas verdes e os espelhos d’água das lagunas. O som do carro chiava com a banda Eagles; aquela coletânea parecia ditar nossos assuntos fragmentados.

Centenas de motoristas cruzavam aquela mesma estrada todos os dias. Olhavam para as mesmas lagoas, para o mesmo mato na beira do acostamento, e enxergavam apenas a pressa do retorno, o trânsito ou a contagem dos quilômetros. Uma moldura comum, gasta pelo hábito.

Mas o Morcego via outra coisa. Ele ia com a cara na janela, de óculos espelhados, olhando para a paisagem como se estivesse decodificando um segredo que mais ninguém conseguia ler. Enquanto o resto do mundo usava os olhos só para guiar o carro, ele usava para distorcer a realidade a nosso favor. — Olha lá, Navi... Cata-ventos e a gente rumo ao relento.

Navi sorriu de canto, mudando a marcha da Rural com um estalo seco. O asfalto comum sumiu. Nós não estávamos só passando por um lugar; estávamos inventando o lugar enquanto avançávamos.

No entanto, por trás do cinzel daquela tarde dourada, ocorria em mim uma silenciosa e irremediável ruína. Foi precisamente ali, sob a luz curva que fracionava as colinas, que a consciência se desfez de suas ilusões cronológicas e me entregou a fria constatação: eu me despedia, em definitivo, da minha própria juventude. Aquela era a derradeira liturgia com aqueles amigos; o solo daquela região transmudava-se, a partir daquele quilômetro, em território interditado ao meu futuro. Nunca mais haveria o retorno. E a percepção desse exílio voluntário carregava uma rigidez dilacerante. Era uma dor seminal, simétrica e vasta. O colapso de um mundo inteiro comprimido no espaço de um sopro.

Charro Sendero


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O chão debaixo de mim

Estacionamos na Praia da Vila. As ondas quebravam com uma fúria sagrada; estilhaços de heavy metal aquático espancando a costa. Ali, de joelhos na areia, vendo os surfistas flutuarem na espuma como santos modernos, gostava da mecânica daquele mistério. O mar vencendo sem violência. É silencioso em sua essência, mas contesta as perguntas e vem aos que O chamam. Ele — em pura tranquilidade — controla tudo, escolhendo as pessoas para Ele mesmo.

De repente, a água congelante da primeira marola me rasou os tornozelos. O vento da Praia da Vila veio junto, cortando o rosto com o cheiro acre de sal e iodo. Enterrei as mãos na areia grossa, sentindo os grãos sob as unhas enquanto o mar recuava, puxando o chão debaixo de mim. Era a pista de que o tempo ali havia esgotado; hora de seguir.

         Charro Sendero 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Luz Amarela, depois da Fábrica.

A minha paixão incurável é esta: a de não ter nada por que me apaixonar, e achar que isso basta. O que alguns chamam de amor é uma pressa em inventar mistérios onde só existe espaço, e eu prefiro o espaço. Olho para a noite e não procuro nela uma amante ou uma melodia; a noite é só o céu que ficou escuro porque o sol se deitou por trás das colinas, e ter paixão por ela é apenas aceitar que ela mude de cor sem me pedir licença. Seguro meu candeeiro e sua luz amarela não carrega saudades nem promessas; são lumes traçando  fios, lembrança que começa e logo deixa de ser. Sinto o cheiro do ar da noite, escuto o seu silêncio que é apenas o cansaço do mundo, e sinto-me feliz por não querer que a noite seja outra coisa. Minha alma tem a simplicidade de um canário da terra pousado no fio. Não amar nada com o pensamento, e amar tudo apenas com os olhos abertos, é a única paixão que me cura de... Envelhecer. A noite passa por mim sem me prometer nada, e eu a recebo sem lhe pedir nada; somos dois conhecidos que se cruzam no escuro e acham que o mundo está perfeito assim.
Charro Sendero

O som da água e os ruídos industriais

 

Charro Sendero

Aquele lugar está vivo



                               

                                    Charro Sendero

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Ela chegou antes

 A beleza costuma entrar primeiro nos olhos da gente. A presença, porém, escolhe outro caminho. Ela chegou antes de qualquer gesto. Como certas melodias que reconhecemos antes mesmo de ouvir a primeira nota. Seus cabelos tinham pacto com o pôr do sol; jamais obedeciam à luz da noite. Não era mulher que esperava ser descoberta. Era o tipo que fazia um homem descobrir partes de si que permaneciam escondidas.

Charro Sendero

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A lenda do Canoeiro Prateado

Esqueça os calendários

 Deixe-me contar uma história que não aconteceu comigo. Ou talvez tenha acontecido, naquelas noites em que a última cerveja me fazia inventar milagres para não morrer de tédio.

Tudo começa no Baixo Grande, em São Pedro D'Aldeia. Um lugar suspenso no tempo, onde a brisa bate forte e o som cortante das casuarinas parece o assovio das flechas de taquara dos Matarunas. Uma terra cercada por esqueléticos cata-ventos, que giram devagar, moendo o próprio tempo.

Ali vivia um canoeiro. Não me pergunte o seu nome. As histórias antigas são implacáveis: elas guardam o nome de quem amamos e deixam o resto para o esquecimento.

Ele saía todas as madrugadas para arrancar a vida da Lagoa Maracanã. Em suas mãos calejadas remava com o cambão, uma extensão dos seus próprios braços. Ele conhecia o segredo das águas e sabia onde encontrar o carapicu e a perumbeba, deliciosos peixes humildes.

E havia aquela mulher esperando por ele.

 Meu Deus, aquela mulher. Ela não precisava de espelho, não precisava de nada que o dinheiro pudesse comprar. Era uma moça da restinga, esculpida a tapa pelo vento sudoeste, pela maresia. Uma beleza de presença pura. O canoeiro havia se casado com ela por amor. Um erro terrível. Naquele tempo, como agora, amar de verdade exige muita coragem.

A pesca era o sustento dos dois. Ele entrava na lagoa antes do dia nascer, enquanto no breu voavam as corujas orelhudas, e sua amada ficava na margem, acompanhando com os olhos a partida da canoa. Todas as noites. Ela esperava. Ele partia. E de manhã, quando o homem voltava exausto e cheirando a salina, havia café esperando por ele. Café forte, fumegante. Torradas com queijo de cura, comida da terra que não precisava de nomes bonitos para acalmar a fome.

Era assim que eles se amavam. Sem grandes discursos e, o mundo, por algumas horas, parecia uma engrenagem perfeita e sagrada.

Até que, certa madrugada, ele partiu. E não voltou. Nunca mais.

 Não teve choro de velório, nenhuma explicação convincente nos causos de pescadores. A lagoa engoliu o homem. E ela engoliu a espera, indo até a lagoa todas as noites. Como se o tempo tivesse parado e ainda fosse acompanhá-lo na partida. Ficava ali, com as garças brancas de testemunhas, olhando para a imensidão escura. E cantava. Sua voz subia pelas estrelas, rasgada de saudade:

"Vai, canoeiro, pras ondas do mar, vai, canoeiro, canoeirar."

Cantava para a lagoa. Cantava para a canoa que já não existia. Cantava para onde os vivos não podiam chegar.

E a Lua, que observa a miséria e a grandeza dos grandes amores, teve compaixão. Mas naquela noite era Lua Crescente. Só havia um arco de brilho no céu. Então a Lua, num gesto de pura misericórdia, esfarrapou o pouco que lhe restava de luz. Só um tiquinho. O suficiente para um pobre milagre.

E prateou o Canoeiro.

A mulher o viu novamente. Primeiro, uma claridade mística sobre a água, luzindo na escuridão da Lagoa Maracanã. Depois, o contorno da canoa. Depois, o homem. Não de carne e osso, mas como uma memória feita de lume anilado. Ele remava devagar. Sem pressa. Como quem finalmente encontrou a eternidade e não precisava mais chegar a lugar nenhum.

Ela cantava à margem, com o coração em frangalhos e chorando de alegria: "Vai, canoeiro, pras ondas do mar..."

Desde então, dizem que, nas noites de Lua Crescente, o Canoeiro Prateado retorna. A Lua, feita cúmplice daquele amor desesperado, devolve-lhe o brilho, e ele passa pela água feito uma lembrança que se recusou a morrer.

Alguns dizem que é visagem. Outros dizem que é reflexo, ou apenas o luar pregando peças na água. Eu não discuto com essas pessoas de alma seca. Penso que cada um precisa da explicação que consiga carregar no peito para não enlouquecer.

Portanto, se você estiver um dia na Lagoa Maracanã, numa noite escura, fique quieto. Esqueça o barulho do mundo e ouça as casuarinas. Não leve medo. Não leve o seu telefone para tirar fotografias. Não leve perguntas. Leve apenas aquilo que a mulher do canoeiro carregou durante todos aqueles anos de solidão:

  Um amor de enlouquecer.  

Talvez você veja uma canoa prateada atravessando o silêncio da água. Talvez escute um sopro de voz cantando na areia cheia de conchas. E, se tiver o coração limpo, compreenderá que algumas pessoas nunca desaparecem de verdade. Elas apenas aprendem outro jeito de voltar.

Charro Sendero

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Tormenta

Foi por sede que te encontrei.

Sede do torpor que me faltava,
da vertigem que garrafa nenhuma conhecia.
E segui sedento,
bebendo o silêncio líquido dos teus lábios,
derramando-me na tua lembrança,
faminto dos teus sabores.

Havia em ti o prenúncio da tempestade.

Quente e úmida como os ares
que se concentram antes do ciclone,
girando em fúria em torno de um nome
que eu não ousava falar.

E eu, de tantas noites,
naufragava no teu corpo de enraivecido branco.
Buscava abrigo na borda do abismo,
sabendo que certas forças
não foram feitas para se evitar.

Então vinham os devaneios,
rápidos, febris,
arrancando as velhas certezas do chão,
levando tudo por onde passavam.

E eu deixava.

Porque há bocas que não apenas beijam
E havia a tua, com sua gravidade perigosa,
onde a minha descobriu
que algumas bebidas não matam a sede.
Apenas nos condenam a beber
outra vez.
Charro Sendero

Réquiem



Vi a lua esmurrando o céu 
E a minha escuridão 
E o que pensei 
Apenas 
Nunca pensei 
Cantando a mesma canção 
Ela não se engana 
E a desumana canta 
Hoje a noite a mim 
O avesso da vida escorria dali 
Úmidas vertentes que eu conheci 
No meio do Redemoinho 
Réquiem Réquiem 
"En la boca llevarás Sabor a mi" 
Quem busca nunca encontra o amor 
Só lendas profanas de caçador 
No meio do Redemoinho
Réquiem...

Amo-te como um bicho


Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude."
Vinicius de Moraes

domingo, 23 de agosto de 2026

Via Lagos


Navi Mangolini pilotava uma picape Rural Willys como se estivesse regendo uma orquestra de pistões e fumaça. Cada troca de marcha era um gesto de maestro; cada espirro do motor, uma nota fora da partitura. Ele era a rebeldia, idealizada e perdoada por suas atitudes autodestrutivas em nome do rock and roll.
Eu permanecia um segredo guardado por quem não sabe o que busca.
Lá fora estavam a placidez da Via Lagos e o final de década. A estrada parecia recém-inventada. O asfalto corria diante de nós com aquela solenidade das coisas que não sabem que um dia desaparecerão. Postos de gasolina em Boqueirão, placas verdes de Catimbau, terrenos baldios em Neves, pequenas casas atrás de cercas no distrito de Boa Esperança. O mundo ainda tinha telefones públicos, fitas cassete e uma certa inocência tecnológica. Ninguém sabia ainda que o século seguinte viria cobrar juros sobre cada minuto perdido.
Navi dirigia com uma mão no volante e a outra procurando alguma coisa no rádio. Era sempre alguma música estranha. Sempre.
— Você acredita no futuro, Sendero?
— Acredito no amor — eu disse.
Ele riu.
— Perguntei sobre o futuro.
— É a mesma coisa.
— Então você está na merda.
Eu sorri. Havia alguma coisa profundamente bacana em estar perdido ao lado de alguém que não acreditava em caminho algum.
A Rural tossiu. Navi bateu duas vezes no painel.
— Calma, velha. Ainda não chegou nossa hora.
Olhei para aquela máquina. Parecia impossível que uma coisa tão antiga pudesse continuar avançando. Talvez fosse por isso que eu não confiasse em máquinas: elas não precisavam compreender o tempo para atravessá-lo.
Estalei e risquei o Zippo, acendi um Chesterfield. Sabíamos que o tempo existia e, por isso, sofríamos.
— Você já reparou — perguntei — que ninguém viaja realmente para algum lugar?
— Claro.
— E?
— A pessoa só muda de lugar para continuar sendo a mesma.
De soslaio, olhei para ele. Navi acendeu um Marlboro.
— O homem inventou a estrada porque descobriu que ficar parado era insuportável. Depois, inventou a porra do destino para fingir que sabia para onde estava indo.
— Você é um sátiro.
— Sou um filho da puta realista.
A fumaça entrou, dançou com o vento das janelas abertas e ficou flutuando entre nós.
Do lado de fora, a tarde avançava. Não havia pressa. Era isso que me perturbava. O tempo não corria naquela estrada; ele simplesmente passava. As árvores continuavam sendo árvores. Os postes continuavam de pé. O céu permanecia indiferente. E nós, dois sujeitos dentro de uma caminhonete velha, acreditávamos que estávamos indo ao encontro de alguma coisa.
Talvez estivéssemos apenas nos afastando de nós mesmos.
Navi aumentou o volume. Um violão rompeu o silêncio. Por alguns quilômetros, não falamos.
Eu pensei nas mulheres que amei, nas que desejei, mas que talvez tivesse amado se soubesse como. Pensei na sabedoria, essa velha prostituta que nunca se entregava inteiramente. Pensei que talvez viver fosse isso: passar a vida inteira procurando uma porta e descobrir, tarde demais, que a porta estava dentro da gente.
Navi dirigia. Eu pensava. A estrada continuava.
— Sendero.
— Hum?
— Se você pudesse voltar no tempo, voltaria?
Olhei pela janela. Um cavalo pastava sozinho atrás de uma cerca.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu ainda não conheci todas as pessoas que vou amar.
Navi ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu voltaria.
— Para onde?
— Para qualquer lugar onde eu ainda não tivesse estragado tudo.
Foi a primeira vez naquela viagem que ele pareceu cansado. Depois, voltou a sorrir.
— Mas isso é impossível. Eu estragaria tudo outra vez.
E pisou no acelerador. A Rural respondeu com um rugido.
São Pedro da Aldeia apareceu devagar, como aparecem as cidades que não precisam provar nada a ninguém. O dia começava a descer. A luz tinha aquela cor antiga das fotografias que sobrevivem ao fotógrafo.
— Tá vendo aquelas placas, Sendero? Região dos Lagos.
— Estou.
— Pois é. Tem gente que vem atrás de paz, pescaria, pôr do sol...
— E você? — eu disse.
— Eu vim atrás das mulheres.
— Que mulheres, Navi?
— As de bunda grande, meu caro. Deus não colocaria tanta areia, tanto sol e tanta água num lugar desses sem nenhuma finalidade.
Eu ri muito.
— Você reduz o universo a uma bunda.
— No. Eu reduzo o universo ao que consigo compreender.
— E a porra do amor?
— O amor é quando a bunda vai embora e você ainda quer que ela fique.
Navi acelerou a Rural.
— Agora, sim, Senhor Sendero. Estamos chegando à filosofia.
Paramos num botequim. Não havia ninguém importante ali. Por isso mesmo, era perfeito. Sentamos numa mesa ensebada. Navi pediu cerveja. Eu pedi sardinhas no capote fritas. Quando chegaram, fumegantes, pequenas e douradas, fiquei olhando para elas como se fossem um milagre.
— Olha só — falei.
Navi pegou uma com os dedos.
— O quê?
— O tempo.
Ele olhou para a sardinha.
— Você está ficando maluco.
— Não. Pensa. Ela nasceu no mar, morreu, foi pescada, chegou aqui e agora está na nossa mesa. Tudo isso para que a gente coma em cinco minutos.
Navi mastigou.
— Filosofia de botequim.
— Porra é o instante da sardinha!
Ele tomou um gole de cerveja.
— E qual é a conclusão?
Olhei para o céu escurecendo atrás do balcão.
— Talvez o sentido dessa merda seja esse.
— Comer sardinha? — Ele ergueu a garrafa. — Então bebe, poeta.
Ergui a minha. Dei um bom gole .
Lá fora, a noite chegava sem fazer barulho. A Rural esfriava no estacionamento. O século terminava em algum lugar atrás do que a gente falava. E nós dois, bêbados e um pouco menos jovens, continuávamos sentidos diante de partes de espinhas de sardinhas, como se tivéssemos finalmente descoberto que a estrada nunca fora feita para nos levar a lugar nenhum. E, o cara nem me perguntou o que era sardinha no capote...
Charro Sendero

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Incompletudes


 No longo deck de madeira à beira da lagoa da praia da Pitória, lia que o amor já havia sido condenado muito antes de eu nascer. No livro, era fogo que não se vê, ferida que não sangra, prisão que tanto desejamos. Achava que o amor fosse isso: uma contradição que se recusa a ser resolvida.

Queremos possuir aquilo que nos escapa.
Queremos permanecer justamente onde deveríamos partir.
E, quando finalmente encontramos alguém capaz de nos ferir, chamamos a permanência de lealdade.

Camões sabia. Eu apenas demorei muitas estações para descobrir que o amor não é aquilo que nos completa. É o que nos revela incompletos, e é por isso que continuamos procurando — não porque esperamos encontrar alguém.

Por alguns instantes, desejamos encontrar em outro corpo a parte de nós mesmos que perdemos pelo caminho. Fechei o livro. O poema continuava ali. Encarei o abismo e conversei com ele.

Charro Sendero

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O REENCONTRO COM BENJAMIN CONSTANT


"Todo sentimento precisa de um passado para existir...
O amor não, ele cria como por encanto um passado que nos cerca
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que há pouco era quase um estranho
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."
 Bom ler isso, Benjamin Constant!
Lá fora a Lua está crescente, o meu cigarro incandescente, vou beber sobre a natureza atemporal, transformadora do amor, como você,  desafia a lógica cronológica dos nossos sentimentos. Enquanto a maioria dos afetos humanos (como a mágoa, a saudade ou a confiança) precisa de tempo... Tempo precisa convivência e histórico para se consolidar, o amor não. Tem capacidade única de subverter o tempo.
Aqui estão os principais pontos para entender sua dinâmica "mágica" descrita: a ilusão da intemporalidade: Quando o amor verdadeiro acontece, ele preenche os espaços vazios de forma tão intensa que a alma experimenta uma sensação de familiaridade imediata. Alguém deixa de ser um estranho e passa a parecer alguém que sempre esteve ali. O amor não precisa de memórias reais para se sustentar; ele projeta uma sensação de pertencimento tão profunda que supre a falta de lembranças. É a sensação do reencontro em vez de apenas do "reconhecimento". Como a mágoa precisa de uma ofensa passada; o respeito precisa de ações passadas. O amor, por outro lado, é um sentimento de presente absoluto. Dane-se aquele fenômeno poético em que a intensidade substitui a duração, provando que, no território do afeto, a profundidade do que se sente importa muito mais do que o tempo do relógio.

terça-feira, 18 de agosto de 2026


 A Mulher de Prazer


O relógio de parede cravava quatro da tarde.
Entrei na biblioteca, buscando o sagrado, onde o silêncio ecoava como em uma igreja.
E o virar de uma página parecia um pecado confessado.

Eu procurava um livro que a lógica dizia não existir.
Mas encontrar o impossível... Sempre foi desafiador.
Caminhei pelos corredores, tateando o passado,
Até que o tempo parou, cobrando sua vaidade.

Não foi um som. Foi a intuição do homem que desconfia das horas.
Ela estava sentada junto à janela, sob a luz do oeste.
Cabelos negros nos ombros, traços orientais, trajes discretos,

Mas com uma força que nenhum tecido consegue domesticar ou cobrir.

Nas mãos, o volume: Memórias de uma Mulher de Prazer.
Reconheci o título e sorri para o destino que me guiava.
Ela percebeu. Ergueu os olhos por cima da margem.
A pergunta veio baixa, enquanto a chuva lá fora desabava.

— O senhor conhece o livro? — ela quis saber.
— Conheço a reputação que ele carrega — respondi.
Ela fechou o volume, guardando o dedo entre as páginas:
— E qual seria essa reputação que se comenta por aí?

— Depende de quem lê — eu disse, fitando a capa.
E um sorriso brotou nela, perigoso, cheio de curiosidade.
Sentei-me à sua frente. O silêncio nos cobriu.
Risquei o isqueiro. Acendi um Chesterfield na penumbra daquela sala.

Mas ali em Santa Bárbara do Oeste, o tempo parecia não ter pressa de correr.
— Acredita que leem isso por mera curiosidade?
— Não — eu disse. — A curiosidade é o disfarce do querer. É o nome que damos ao desejo quando a vergonha o cala.

Ela me mediu, demorada, com o olhar de quem julga e pesa:
— O senhor parece entender bastante de desejo.
— Tenho tido longas noites... É o que a solidão me entrega.

— Noites longas não são experiência — ela rebateu. — Às vezes, as noites longas se tornam apenas repetição, o mesmo trilhar.


Sorri. Ela havia acertado no alvo da minha alma.
E eu nunca gostei quando conseguiam me decifrar.

— E a senhora? — perguntei. — Por que lê este texto?
O polegar dela acariciou a capa escura, sem pressa ou timidez:
— Para descobrir se uma mulher pode desejar algo...
Sem precisar pedir licença ao mundo, ao menos uma vez.

Olhei para a aliança em seu dedo. Ela notou o meu desvio.
— Não diga nada. Sei que pensa que sou uma mulher casada,
E que uma esposa não deveria folhear tais absurdos.
— Não — respondi. — Penso que a mulher deveria ser livre, ou nada.

Ela inclinou a cabeça, achando-me moderno demais para a época.
Quase ri por dentro. Como se ela soubesse que época estamos...
— E se o desejo contrariar o dever? — ela lançou no ar.
— Ah... — suspirei. — Chegamos à borda da quimera.

Compreendi que ela não lia. Ela pensava, refletia.
E pensar, em certas eras, é o crime mais rebelde e profundo.
Citei um velho filósofo sobre agir por leis universais.
Ela perguntou se eu concordava com as regras do mundo.

— Em alguns dias, sim — respondi e dei um bom trago no cigarro.
— E nos outros? — ela insistiu.
— Nos outros prefiro mulheres que fazem perguntas.
E o riso dela aceitou o desafio que o meu olhar propôs.

— Então responda — disse ela — se a sociedade diz que é imoral,
O desejo se torna maldito por não se encaixar no padrão?
— Não necessariamente.
— E se não prejudicar ninguém? Perguntou.
— A moral vai além do prejuízo. Ela vive de controle e prisão.

— Meu marido acha que sabe quem eu sou — sussurrou ela.
— E ele sabe? — indaguei, sentindo o peso da fala.
— Sabe quem precisa que eu seja. Sabe por que estou aqui.
E aquela frase ecoou, pesada, no silêncio da sala.

Eu conhecia aquela dor. Passei a vida inventando disfarces.
Adaptando apenas a máscara que melhor me servia.
— Todos temos nossas máscaras, Senhora — confessei a ela.
— O senhor troca as suas? — Ela perguntou, com uma estranha energia.

— De vez em quando. Para continuar livre.
— Não — ela me corrigiu, fechando o livro com precisão.
— O senhor troca de máscara para continuar escondido.


E dessa vez o meu riso morreu na garganta, sem negação.

Ela havia me atravessado com uma facilidade assustadora.
Acendi outro cigarro na face do isqueiro e disse — A senhora pouco sabe de mim.
— Sei mais do que deveria, Senhor Sendero — E abriu as páginas,
Revelando um papel dobrado, guardado bem ali no fim.

Meu coração, calejado por delírios, pesadelos e estradas,
Resolveu bater forte, lembrando que ainda era vivo.
Ela estendeu a folha na mesa. Reconheci a caligrafia.
Era a minha letra. Um eco do meu próprio arquivo.

— Isso não deveria estar aqui — eu disse, em choque.
— O senhor diz isso quando algo é apenas improvável.
Desdobrei o papel. Havia uma data que ainda não chegara.
É um aviso escrito por mim, claro e implacável:

“Quando encontrar a mulher que estiver lendo este livro,
Não tente salvá-la. Ela veio para salvá-lo de si mesmo.”

Levantei os olhos, a espinha gelada: — Quem é você?
— A pergunta está errada — ela disse, sem abismo ou cinismo.
— Qual a pergunta certa, então? — me aproximei.


E ela disse, quase tocando meu rosto: — Por que demorou tanto?

Ali eu entendi. Não foi o acaso. Não foi a biblioteca.
— Você sabia que eu viria? — perguntei, no limite da razão.
— Sabia. — Como? — Porque li as suas histórias.
— Mas elas sequer foram escritas! — clamei em negação.

Ela sorriu, mística e disse: — Para você, ainda não.
Olhei para ela por segundos que pareceram um século inteiro.
Compreendi ali a crueldade mais bonita do tempo:
Ele não nos impede de achar o destino verdadeiro,

Ele apenas nos faz passar a vida inteira procurando.

Aquilo que já estava guardado para nos encontrar.

Ela se levantou. O silêncio cobria a biblioteca.
Um sino distante começou a badalar.

O mundo continuava no lugar. Nós dois também.
Ela desabotoou o vestido, sem medo do que viria depois.
E aquela anciã biblioteca, testemunha de tantos segredos,
Guardou para sempre o mistério que nasceu entre nós dois.
Charro Sendero

Big Boy, no Cavern Club de hoje!

  Uma viagem ao quarto da casa 4 Ontem, depois de algumas longnecks e de uma dessas conversas inúteis que às vezes salvam a noite, resolvi v...