terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Canoeiro Prateado


Esqueça os calendários

Eu andei demais para acreditar em números impressos num pedaço de papel. Deixe-me contar uma história que não aconteceu comigo. Ou talvez tenha acontecido, naquelas noites em que a última cerveja me fazia inventar milagres para não morrer de tédio.

Tudo começa no Baixo Grande, em São Pedro D'Aldeia. Um lugar suspenso no tempo, onde a brisa bate forte e o som cortante das casuarinas parece o assovio das flechas de taquara dos Matarunas. Uma terra cercada por esqueléticos cata-ventos, que giram devagar, moendo o próprio tempo.

Ali vivia um canoeiro. Não me pergunte o seu nome. As histórias antigas são implacáveis: elas guardam o nome de quem amamos e deixam o resto para o esquecimento.

Ele saía todas as madrugadas para arrancar a vida da Lagoa Maracanã. Em suas mãos calejadas remava com o cambão, uma extensão dos seus próprios braços. Ele conhecia o segredo das águas e sabia onde encontrar o carapicu e a perumbeba, deliciosos peixes humildes.

E havia aquela mulher esperando por ele.

 Meu Deus, aquela mulher. Ela não precisava de espelho, não precisava de nada que o dinheiro pudesse comprar. Era uma moça da restinga, esculpida a tapa pelo vento sudoeste, pela maresia. Uma beleza de presença pura. O canoeiro havia se casado com ela por amor. Um erro terrível. Naquele tempo, como agora, amar de verdade exige muita coragem.

A pesca era o sustento dos dois. Ele entrava na lagoa antes do dia nascer, enquanto no breu voavam as corujas orelhudas, e sua amada ficava na margem, acompanhando com os olhos a partida da canoa. Todas as noites. Ela esperava. Ele partia. E de manhã, quando o homem voltava exausto e cheirando a salina, havia café esperando por ele. Café forte, fumegante. Torradas com queijo de cura, comida da terra que não precisava de nomes bonitos para acalmar a fome.

Era assim que eles se amavam. Sem grandes discursos e, o mundo, por algumas horas, parecia uma engrenagem perfeita e sagrada.

Até que, certa madrugada, ele partiu. E não voltou. Nunca mais.

 Não teve choro de velório, nenhuma explicação convincente nos causos de pescadores. A lagoa engoliu o homem. E ela engoliu a espera, indo até a lagoa todas as noites. Como se o tempo tivesse parado e ainda fosse acompanhá-lo na partida. Ficava ali, com as garças brancas de testemunhas, olhando para a imensidão escura. E cantava. Sua voz subia pelas estrelas, rasgada de saudade:

"Vai, canoeiro, pras ondas do mar, vai, canoeiro, canoeirar."

Cantava para a lagoa. Cantava para a canoa que já não existia. Cantava para onde os vivos não podiam chegar.

E a Lua, que observa a miséria e a grandeza dos grandes amores, teve compaixão. Mas naquela noite era Lua Crescente. Só havia um arco de brilho no céu. Então a Lua, num gesto de pura misericórdia, esfarrapou o pouco que lhe restava de luz. Só um tiquinho. O suficiente para um pobre milagre.

E prateou o Canoeiro.

A mulher o viu novamente. Primeiro, uma claridade mística sobre a água, luzindo na escuridão da Lagoa Maracanã. Depois, o contorno da canoa. Depois, o homem. Não de carne e osso, mas como uma memória feita de lume anilado. Ele remava devagar. Sem pressa. Como quem finalmente encontrou a eternidade e não precisava mais chegar a lugar nenhum.

Ela cantava à margem, com o coração em frangalhos e chorando de alegria: "Vai, canoeiro, pras ondas do mar..."

Desde então, dizem que, nas noites de Lua Crescente, o Canoeiro Prateado retorna. A Lua, feita cúmplice daquele amor desesperado, devolve-lhe o brilho, e ele passa pela água feito uma lembrança que se recusou a morrer.

Alguns dizem que é visagem. Outros dizem que é reflexo, ou apenas o luar pregando peças na água. Eu não discuto com essas pessoas de alma seca. Penso que cada um precisa da explicação que consiga carregar no peito para não enlouquecer.

Portanto, se você estiver um dia na Lagoa Maracanã, numa noite escura, fique quieto. Esqueça o barulho do mundo e ouça as casuarinas. Não leve medo. Não leve o seu telefone para tirar fotografias. Não leve perguntas. Leve apenas aquilo que a mulher do canoeiro carregou durante todos aqueles anos de solidão:

  Um amor de enlouquecer.  

Talvez você veja uma canoa prateada atravessando o silêncio da água. Talvez escute um sopro de voz cantando na areia cheia de conchas. E, se tiver o coração limpo, compreenderá que algumas pessoas nunca desaparecem de verdade. Elas apenas aprendem outro jeito de voltar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Tormenta

Foi por sede que te encontrei.

Sede do torpor que me faltava,
da vertigem que garrafa nenhuma conhecia.
E segui sedento,
bebendo o silêncio líquido dos teus lábios,
derramando-me na tua lembrança,
faminto dos teus sabores.

Havia em ti o prenúncio da tempestade.

Quente e úmida como os ares
que se concentram antes do ciclone,
girando em fúria em torno de um nome
que eu não ousava falar.

E eu, de tantas noites,
naufragava no teu corpo de enraivecido branco.
Buscava abrigo na borda do abismo,
sabendo que certas forças
não foram feitas para se evitar.

Então vinham os devaneios,
rápidos, febris,
arrancando as velhas certezas do chão,
levando tudo por onde passavam.

E eu deixava.

Porque há bocas que não apenas beijam
E havia a tua, com sua gravidade perigosa,
onde a minha descobriu
que algumas bebidas não matam a sede.
Apenas nos condenam a beber
outra vez.
Charro Sendero

Réquiem


Vi a lua esmurrando o céu 
E a minha escuridão 
E o que pensei 
Apenas 
Nunca pensei 
Cantando a mesma canção 
Ela não se engana 
E a desumana canta 
Hoje a noite a mim 
O avesso da vida escorria dali 
Úmidas vertentes que eu conheci 
No meio do Redemoinho 
Réquiem Réquiem 
"En la boca llevarás Sabor a mi" 
Quem busca nunca encontra o amor 
Só lendas profanas de caçador 
No meio do Redemoinho
Réquiem...

Amo-te como um bicho


Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude."
Vinicius de Moraes

domingo, 23 de agosto de 2026

Via Lagos


Navi Mangolini pilotava uma picape Rural Willys como se estivesse regendo uma orquestra de pistões e fumaça. Cada troca de marcha era um gesto de maestro; cada espirro do motor, uma nota fora da partitura. Ele era a rebeldia, idealizada e perdoada por suas atitudes autodestrutivas em nome do rock and roll.
Eu permanecia um segredo guardado por quem não sabe o que busca.
Lá fora estavam a placidez da Via Lagos e o final dos anos 90. A estrada parecia recém-inventada. O asfalto corria diante de nós com aquela solenidade das coisas que não sabem que um dia desaparecerão. Postos de gasolina em Boqueirão, placas verdes de Catimbau, terrenos baldios em Neves, pequenas casas atrás de cercas no distrito de Boa Esperança. O mundo ainda tinha telefones públicos, fitas cassete e uma certa inocência tecnológica. Ninguém sabia ainda que o século seguinte viria cobrar juros sobre cada minuto perdido.
Navi dirigia com uma mão no volante e a outra procurando alguma coisa no rádio. Era sempre alguma música estranha. Sempre.
— Você acredita no futuro, Sendero?
— Acredito no amor — eu disse.
Ele riu.
— Perguntei sobre o futuro.
— É a mesma coisa.
— Então você está na merda.
Eu sorri. Havia alguma coisa profundamente bacana em estar perdido ao lado de alguém que não acreditava em caminho algum.
A Rural tossiu. Navi bateu duas vezes no painel.
— Calma, velha. Ainda não chegou nossa hora.
Olhei para aquela máquina. Parecia impossível que uma coisa tão antiga pudesse continuar avançando. Talvez fosse por isso que eu não confiasse em máquinas: elas não precisavam compreender o tempo para atravessá-lo.
Estalei e risquei o Zippo, acendi um Chesterfield. Sabíamos que o tempo existia e, por isso, sofríamos.
— Você já reparou — perguntei — que ninguém viaja realmente para algum lugar?
— Claro.
— E?
— A pessoa só muda de lugar para continuar sendo a mesma.
De soslaio, olhei para ele. Navi acendeu um Marlboro.
— O homem inventou a estrada porque descobriu que ficar parado era insuportável. Depois, inventou a porra do destino para fingir que sabia para onde estava indo.
— Você é um sátiro.
— Sou um filho da puta realista.
A fumaça entrou, dançou com o vento das janelas abertas e ficou flutuando entre nós.
Do lado de fora, a tarde avançava. Não havia pressa. Era isso que me perturbava. O tempo não corria naquela estrada; ele simplesmente passava. As árvores continuavam sendo árvores. Os postes continuavam de pé. O céu permanecia indiferente. E nós, dois sujeitos dentro de uma caminhonete velha, acreditávamos que estávamos indo ao encontro de alguma coisa.
Talvez estivéssemos apenas nos afastando de nós mesmos.
Navi aumentou o volume. Um violão rompeu o silêncio. Por alguns quilômetros, não falamos.
Eu pensei nas mulheres que amei, nas que desejei, mas que talvez tivesse amado se soubesse como. Pensei na sabedoria, essa velha prostituta que nunca se entregava inteiramente. Pensei que talvez viver fosse isso: passar a vida inteira procurando uma porta e descobrir, tarde demais, que a porta estava dentro da gente.
Navi dirigia. Eu pensava. A estrada continuava.
— Sendero.
— Hum?
— Se você pudesse voltar no tempo, voltaria?
Olhei pela janela. Um cavalo pastava sozinho atrás de uma cerca.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu ainda não conheci todas as pessoas que vou amar.
Navi ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu voltaria.
— Para onde?
— Para qualquer lugar onde eu ainda não tivesse estragado tudo.
Foi a primeira vez naquela viagem que ele pareceu cansado. Depois, voltou a sorrir.
— Mas isso é impossível. Eu estragaria tudo outra vez.
E pisou no acelerador. A Rural respondeu com um rugido.
São Pedro da Aldeia apareceu devagar, como aparecem as cidades que não precisam provar nada a ninguém. O dia começava a descer. A luz tinha aquela cor antiga das fotografias que sobrevivem ao fotógrafo.
— Tá vendo aquelas placas, Sendero? Região dos Lagos.
— Estou.
— Pois é. Tem gente que vem atrás de paz, pescaria, pôr do sol...
— E você? — eu disse.
— Eu vim atrás das mulheres.
— Que mulheres, Navi?
— As de bunda grande, meu caro. Deus não colocaria tanta areia, tanto sol e tanta água num lugar desses sem nenhuma finalidade.
Eu ri muito.
— Você reduz o universo a uma bunda.
— No. Eu reduzo o universo ao que consigo compreender.
— E a porra do amor?
— O amor é quando a bunda vai embora e você ainda quer que ela fique.
Navi acelerou a Rural.
— Agora, sim, Senhor Sendero. Estamos chegando à filosofia.
Paramos num botequim. Não havia ninguém importante ali. Por isso mesmo, era perfeito. Sentamos numa mesa ensebada. Navi pediu cerveja. Eu pedi sardinhas no capote fritas. Quando chegaram, fumegantes, pequenas e douradas, fiquei olhando para elas como se fossem um milagre.
— Olha só — falei.
Navi pegou uma com os dedos.
— O quê?
— O tempo.
Ele olhou para a sardinha.
— Você está ficando maluco.
— Não. Pensa. Ela nasceu no mar, morreu, foi pescada, chegou aqui e agora está na nossa mesa. Tudo isso para que a gente coma em cinco minutos.
Navi mastigou.
— Filosofia de botequim.
— Porra é o instante da sardinha!
Ele tomou um gole de cerveja.
— E qual é a conclusão?
Olhei para o céu escurecendo atrás do balcão.
— Talvez o sentido dessa merda seja esse.
— Comer sardinha? — Ele ergueu a garrafa. — Então bebe, poeta.
Ergui a minha. Dei um bom gole .
Lá fora, a noite chegava sem fazer barulho. A Rural esfriava no estacionamento. O século terminava em algum lugar atrás do que a gente falava. E nós dois, bêbados e um pouco menos jovens, continuávamos sentidos diante de partes de espinhas de sardinhas, como se tivéssemos finalmente descoberto que a estrada nunca fora feita para nos levar a lugar nenhum. E, o cara nem me perguntou o que era sardinha no capote...
Charro Sendero

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Incompletudes


 No longo deck de madeira à beira da lagoa da praia da Pitória, lia que o amor já havia sido condenado muito antes de eu nascer. No livro, era fogo que não se vê, ferida que não sangra, prisão que tanto desejamos. Achava que o amor fosse isso: uma contradição que se recusa a ser resolvida.

Queremos possuir aquilo que nos escapa.
Queremos permanecer justamente onde deveríamos partir.
E, quando finalmente encontramos alguém capaz de nos ferir, chamamos a permanência de lealdade.

Camões sabia. Eu apenas demorei muitas estações para descobrir que o amor não é aquilo que nos completa. É o que nos revela incompletos, e é por isso que continuamos procurando — não porque esperamos encontrar alguém.

Por alguns instantes, desejamos encontrar em outro corpo a parte de nós mesmos que perdemos pelo caminho. Fechei o livro. O poema continuava ali. Encarei o abismo e conversei com ele.

Charro Sendero

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O REENCONTRO COM BENJAMIN CONSTANT


"Todo sentimento precisa de um passado para existir...
O amor não, ele cria como por encanto um passado que nos cerca
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que há pouco era quase um estranho
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."
 Bom ler isso, Benjamin Constant!
Lá fora a Lua está crescente, o meu cigarro incandescente, vou beber sobre a natureza atemporal, transformadora do amor, como você,  desafia a lógica cronológica dos nossos sentimentos. Enquanto a maioria dos afetos humanos (como a mágoa, a saudade ou a confiança) precisa de tempo... Tempo precisa convivência e histórico para se consolidar, o amor não. Tem capacidade única de subverter o tempo.
Aqui estão os principais pontos para entender sua dinâmica "mágica" descrita: a ilusão da intemporalidade: Quando o amor verdadeiro acontece, ele preenche os espaços vazios de forma tão intensa que a alma experimenta uma sensação de familiaridade imediata. Alguém deixa de ser um estranho e passa a parecer alguém que sempre esteve ali. O amor não precisa de memórias reais para se sustentar; ele projeta uma sensação de pertencimento tão profunda que supre a falta de lembranças. É a sensação do reencontro em vez de apenas do "reconhecimento". Como a mágoa precisa de uma ofensa passada; o respeito precisa de ações passadas. O amor, por outro lado, é um sentimento de presente absoluto. Dane-se aquele fenômeno poético em que a intensidade substitui a duração, provando que, no território do afeto, a profundidade do que se sente importa muito mais do que o tempo do relógio.

terça-feira, 18 de agosto de 2026


 A Mulher de Prazer


O relógio da biblioteca marcava quatro horas da tarde quando entrei.

Era 1920, as bibliotecas ainda tinham o silêncio dos lugares sagrados. As pessoas caminhavam entre as estantes como quem atravessava uma igreja e até o ruído de uma página sendo virada parecia uma espécie de confissão.

Eu procurava um livro que provavelmente não existia mas, era uma das minhas especialidades.

Percorri os corredores lentamente, passando os dedos pelas lombadas, até que alguma coisa, não exatamente um som, talvez apenas a intuição de um homem acostumado a desconfiar do tempo, me fez parar.

Ela estava sentada junto à janela. Cabelos negros à altura dos ombros. Traços delicadamente orientais. Vestia-se com a discrição que aquela época exigia das mulheres casadas, mas havia nela muita coisa que o vestido não conseguia domesticar.

Segurava um livro: Memórias de uma Mulher de Prazer.
Reconheci o título e sorri. Não para ela. Para o destino.
Ela percebeu. Ergueu os olhos por cima da página.

— Conhece o livro?
A pergunta veio baixa, quase escondida pelo silêncio da sala. Aproximei-me.

— Conheço a reputação dele.
Ela fechou o livro, deixando um dedo entre as páginas.
— E qual é a reputação?
Olhei para a capa, depois para ela.
— Depende de quem está lendo. Eu disse.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. Não era um sorriso de convite. Era pior. Era sorriso de curiosidade. Sentei-me diante dela. Por alguns instantes, não dissemos nada. Estalei meu isqueiro e acendi um Chesterfield.  Do lado de fora, uma chuva fina continuava em Santa Bárbara do Oeste. Dentro da biblioteca, porém, o tempo parecia ter parado. Ela abriu novamente o livro.

— O senhor acredita que as pessoas leem livros como este por curiosidade?

— Não.

— Por quê? Eu disse, pensei um pouco.

— Porque curiosidade é o nome que damos ao desejo quando ainda temos vergonha dele.

Ela me examinou demoradamente.

— O senhor parece conhecer bastante sobre desejo.

— Tenho tido longas noites.

— Isso não significa experiência. Às vezes significa apenas repetição.

Aquilo me fez sorrir. Ela tinha acertado e eu não gostava quando acertavam.

— E a senhora? — perguntei. — Por que o lê?

Ela passou o polegar pela borda da capa.

— Para descobrir se uma mulher pode desejar alguma coisa sem precisar pedir licença.

Olhei para a aliança em sua mão. Ela percebeu.

— Não precisa dizer nada — falou. — Eu sei o que está pensando.

— Duvido.

— Está pensando que uma mulher casada não deveria estar lendo um livro desses.

— Não.

— Então o que está pensando?

— Que uma mulher casada deveria poder ler o que quiser.

Ela inclinou a cabeça.

— Uma resposta bastante moderna para um homem desse tempo.

Quase ri. Se ela soubesse.

— E se o desejo contrariar o dever?

— Ah.

Ela fechou o livro novamente.

— Finalmente chegamos ao ponto.

Foi então que compreendi que aquela mulher não estava simplesmente lendo. Estava pensando.

E isso, em certas épocas, é uma forma bastante perigosa de rebeldia.

— Um velho pensador diria que devemos agir segundo princípios que pudéssemos desejar transformar em lei universal. Eu disse.

— E o senhor concorda com ele?

— Em alguns dias.

— E nos outros?

— Nos outros prefiro mulheres que façam perguntas.

Ela sorriu.

— Então responda: se uma mulher deseja algo que sua sociedade considera imoral, o desejo torna-se imoral?

— Não necessariamente.

— E se ela não prejudicar ninguém?

— A moral não se resume ao prejuízo.

— Não. Às vezes se resume ao controle.
Fiquei em silêncio.

Ela continuou:

— Meu marido acredita que sabe quem eu sou.

— E sabe?

— Sabe quem precisa que eu seja e sabe o porquê estou aqui.

Aquela frase ficou entre nós. Eu conhecia aquilo. Mais do que gostaria. Passei a vida inteira inventando personagens. Charro Sendero era apenas o mais bem-sucedido.

— Todos temos nossas máscaras — falei. Ela me olhou de maneira diferente.

— O senhor troca as suas?

— De vez em quando.

— Por quê?

— Para continuar livre.

Ela fechou o livro.

— Não.

— Não?

— Para continuar escondido.

Dessa vez não sorri. Acendi outro Chesterfield, ela havia me atravessado com uma facilidade desconcertante.

— A senhora pouco sabe sobre mim.

— Sei mais do que deveria.

Então ela abriu o livro. Entre duas páginas havia uma folha dobrada. Meu coração, que já atravessara sonhos, delírios e pesadelos, sem jamais demonstrar grande preocupação, resolveu naquele momento lembrar que existia. Ela colocou a folha de papel sobre a mesa. Reconheci a caligrafia antes mesmo de ler. Era minha.

— Isso não deveria estar aqui.

— O senhor costuma dizer isso quando alguma coisa é apenas improvável.

Desdobrei a folha. Havia uma data. Uma data que ainda não havia chegado. E, abaixo dela, uma frase:

“Quando encontrar a mulher que estiver lendo este livro, não tente salvá-la. Ela veio para salvá-lo de si mesmo.”

Levantei os olhos.

— Quem é você?

Ela demorou a responder.

— A pergunta está errada.

— Qual seria a pergunta certa?

Ela se aproximou ligeiramente.

— Por que demorou tanto?

Foi quando compreendi. Não havia sido o acaso que me levara àquela biblioteca. Não havia sido o livro.

— Você sabia que eu viria?

— Sabia.

— Como?

Ela tocou a página do livro.

— Porque li a suas histórias.

— Elas não foram ainda não foram escritas.

Ela sorriu.

— Para você, não.

Fiquei olhando para aquela mulher durante alguns segundos que poderiam ter durado um século.

Talvez tenha sido naquele instante que compreendi a verdadeira crueldade do tempo.

Ele não nos impede de encontrar alguém.

Ele apenas faz com que passemos uma vida inteira procurando aquilo que já estava destinado a nos encontrar.

Ela levantou-se. A biblioteca continuava silenciosa. Um sino distante anunciou a hora. O mundo permanecia exatamente onde deveria estar. Nós dois, também. Ela desabotoou o vestido e aquela biblioteca, testemunha de tantos segredos, guardou o nosso.

O Canoeiro Prateado

Esqueça os calendários Eu andei demais para acreditar em números impressos num pedaço de papel. Deixe-me contar uma história que não acontec...