Uma viagem ao quarto da casa 4
Ontem, depois de algumas longnecks e de uma dessas conversas inúteis que às vezes salvam a noite, resolvi voltar ao quarto casa 4, na Vila João Monteiro. Não sei exatamente por quê. Talvez porque certas viagens não precisem de passagem, apenas de uma cerveja e alguma disposição para mexer nos escombros da memória.
Havia um pôster de futebol, outro da Raquel Welch, um Forte Apache e meu Mitsubishi Electric Six Transistor. Um radinho de pilha. Pequeno, quadrado, meio vagabundo, mas com uma vocação para o infinito. Quando ligado, produzia um chiado cinzento, uma espécie de neblina elétrica que antecedia os milagres.
Naqueles dias, o mundo não cabia na palma da mão. Era preciso procurá-lo. Às vezes, ele vinha de muito longe, atravessando tempestades atmosféricas, interferências e fronteiras invisíveis, até desembarcar numa caixinha de plástico que esquentava depois de algumas horas de funcionamento e cheirava a metal, suor e mistério.
Era sábado à noite. Um garoto girava o dial da Rádio Mundial AM com a concentração de quem desarma uma bomba. Os 860 kHz. Uma frequência, um destino, uma pequena obsessão. De repente, a estática cedia lugar a uma explosão sonora.
— HELLO, CRAZY PEOPLE!
Era Big Boy.
Aquela voz não tinha nada a ver com os adultos da televisão, os professores da escola ou os sujeitos que apareciam nos jornais para explicar como o mundo deveria funcionar. Big Boy falava outra língua. Uma língua elétrica, apressada, sem pedir licença. Quando começava o Cavern Club, o quarto da casa 4 deixava de ser um endereço perdido no Brasil e se transformava num anexo clandestino de Liverpool.
Foi ali, escorado na cama ou disputando campeonatos de futebol de botão, que os Beatles entraram pela primeira vez na vida daquele guri.
Os quatro rapazes de Liverpool já haviam desmontado a própria banda, mas suas canções continuavam circulando pelo planeta como garrafas lançadas ao mar por náufragos que ainda acreditavam em alguma coisa. As guitarras, as harmonias, aquelas vozes que pareciam ter descoberto um atalho para o futuro. Tudo chegava pelo rádio, trazido de contrabando afetivo nas malas de discos importados do disc jockey Newton Duarte, o Big Boy.
Ele era uma espécie de internet ambulante, antes que alguém inventasse a internet. Garimpava novidades, rompia a liturgia da locução radiofônica e entregava à molecada um mundo que os adultos sequer suspeitavam existir.
Não havia playlists personalizadas, recomendações automáticas ou algoritmos tentando adivinhar nossos desejos. Havia um sujeito do outro lado do rádio, uma frequência caprichosa e um adolescente disposto a esperar. Não sabíamos quando viria a próxima música, muito menos qual seria. E talvez estivesse aí a grande aventura: não tínhamos controle sobre o que iríamos descobrir.
Hoje, podemos ouvir toda a discografia dos Beatles enquanto esperamos o elevador, atravessamos uma avenida ou fingimos prestar atenção numa reunião. A música tornou-se absolutamente disponível, democraticamente empacotada e instantaneamente descartável. Temos o mundo inteiro ao alcance dos dedos, mas parece que desaprendemos a bater à porta.
Eliminamos a distância, a escassez e a espera. Só esquecemos que a espera é o oxigênio do desejo. Quando tudo está disponível, nada parece urgente. Quando podemos ouvir qualquer coisa a qualquer momento, talvez já não saibamos ouvir coisa alguma.
Walter Benjamin provavelmente teria alguma consideração sobre aquele garoto e seu radinho de pilha. A aura, a experiência irrepetível, a presença de alguma coisa que acontece uma única vez. Uma música transmitida pelo rádio AM não era simplesmente reproduzida: acontecia. Se você perdesse aquele instante, dançasse no quintal, fosse buscar um copo d'água ou simplesmente estivesse distraído, a canção desaparecia no éter. Não havia botão para voltar. O chiado fazia parte da experiência. Era a própria geografia do som, a evidência de que alguma coisa estava viajando por quilômetros de atmosfera para chegar até você.
E havia uma estranha comunhão naquela solidão. Um menino sozinho num quarto, segurando uma caixinha de plástico perto do ouvido, sabia, sem precisar de estatísticas, que milhares de outros malucos estavam fazendo exatamente a mesma coisa. Gente espalhada pelo país, talvez pelo mundo, conectada por uma frequência que não exigia senha, cadastro ou autorização dos pais. O rádio nos deixava sozinhos sem nos fazer sentir solitários.
Hoje estamos conectados a milhões de pessoas e frequentemente não conseguimos conversar com quem está sentado à nossa frente. Construímos redes gigantescas para compartilhar nossas pequenas solidões, enquanto os algoritmos trabalham diligentemente para nos convencer de que o mundo inteiro pensa como nós.
O velho rádio fazia o contrário. Não escolhia o que deveríamos ouvir. Apenas abria uma janela e deixava o vento entrar.
Ontem, depois de algumas longnecks, voltei ao quarto da casa 4. Não encontrei o pôster de futebol, nem a Raquel Welch, nem o Forte Apache. O Mitsubishi Electric Six Transistor também desapareceu há muito tempo. Provavelmente foi parar num antiquário ou na memória de alguém que já não se lembra dele.
Mas ainda consigo ouvir aquele chiado cinzento.
E, quando a noite fica suficientemente silenciosa, uma voz atravessa os escombros do tempo, dá uma gargalhada e grita:
— HELLO, CRAZY PEOPLE!
Acho que era assim que começava tudo. Não com uma resposta, mas com uma frequência. Não com a certeza de encontrar alguma coisa, mas com a deliciosa possibilidade de encontrá-la por acaso.
Talvez crescer seja isso: passar a vida inteira tentando sintonizar novamente aquele rádio.
E que se danem os algoritmos. Ainda somos alguns milhões de malucos procurando uma estação no escuro.

















