sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Incompletudes


 No longo deck de madeira à beira da lagoa da praia da Pitória, lia que o amor já havia sido condenado muito antes de eu nascer. No livro, era fogo que não se vê, ferida que não sangra, prisão que tanto desejamos. Achava que o amor fosse isso: uma contradição que se recusa a ser resolvida.

Queremos possuir aquilo que nos escapa.
Queremos permanecer justamente onde deveríamos partir.
E, quando finalmente encontramos alguém capaz de nos ferir, chamamos a permanência de lealdade.

Camões sabia. Eu apenas demorei muitas estações para descobrir que o amor não é aquilo que nos completa. É o que nos revela incompletos, e é por isso que continuamos procurando — não porque esperamos encontrar alguém.

Por alguns instantes, desejamos encontrar em outro corpo a parte de nós mesmos que perdemos pelo caminho. Fechei o livro. O poema continuava ali. Encarei o abismo e conversei com ele.

Charro Sendero

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O REENCONTRO COM BENJAMIN CONSTANT


"Todo sentimento precisa de um passado para existir...
O amor não, ele cria como por encanto um passado que nos cerca
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que há pouco era quase um estranho
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."
 Bom ler isso, Benjamin Constant!
Lá fora a Lua está crescente, o meu cigarro incandescente, vou beber sobre a natureza atemporal, transformadora do amor, como você,  desafia a lógica cronológica dos nossos sentimentos. Enquanto a maioria dos afetos humanos (como a mágoa, a saudade ou a confiança) precisa de tempo... Tempo precisa convivência e histórico para se consolidar, o amor não. Tem capacidade única de subverter o tempo.
Aqui estão os principais pontos para entender sua dinâmica "mágica" descrita: a ilusão da intemporalidade: Quando o amor verdadeiro acontece, ele preenche os espaços vazios de forma tão intensa que a alma experimenta uma sensação de familiaridade imediata. Alguém deixa de ser um estranho e passa a parecer alguém que sempre esteve ali. O amor não precisa de memórias reais para se sustentar; ele projeta uma sensação de pertencimento tão profunda que supre a falta de lembranças. É a sensação do reencontro em vez de apenas do "reconhecimento". Como a mágoa precisa de uma ofensa passada; o respeito precisa de ações passadas. O amor, por outro lado, é um sentimento de presente absoluto. Dane-se aquele fenômeno poético em que a intensidade substitui a duração, provando que, no território do afeto, a profundidade do que se sente importa muito mais do que o tempo do relógio.

terça-feira, 18 de agosto de 2026


 A Mulher de Prazer


O relógio de parede cravava quatro da tarde.
Entrei na biblioteca, buscando o sagrado, onde o silêncio ecoava como em uma igreja.
E o virar de uma página parecia um pecado confessado.

Eu procurava um livro que a lógica dizia não existir.
Mas encontrar o impossível... Sempre foi desafiador.
Caminhei pelos corredores, tateando o passado,
Até que o tempo parou, cobrando sua vaidade.

Não foi um som. Foi a intuição do homem que desconfia das horas.
Ela estava sentada junto à janela, sob a luz do oeste.
Cabelos negros nos ombros, traços orientais, trajes discretos,

Mas com uma força que nenhum tecido consegue domesticar ou cobrir.

Nas mãos, o volume: Memórias de uma Mulher de Prazer.
Reconheci o título e sorri para o destino que me guiava.
Ela percebeu. Ergueu os olhos por cima da margem.
A pergunta veio baixa, enquanto a chuva lá fora desabava.

— O senhor conhece o livro? — ela quis saber.
— Conheço a reputação que ele carrega — respondi.
Ela fechou o volume, guardando o dedo entre as páginas:
— E qual seria essa reputação que se comenta por aí?

— Depende de quem lê — eu disse, fitando a capa.
E um sorriso brotou nela, perigoso, cheio de curiosidade.
Sentei-me à sua frente. O silêncio nos cobriu.
Risquei o isqueiro. Acendi um Chesterfield na penumbra daquela sala.

Mas ali em Santa Bárbara do Oeste, o tempo parecia não ter pressa de correr.
— Acredita que leem isso por mera curiosidade?
— Não — eu disse. — A curiosidade é o disfarce do querer. É o nome que damos ao desejo quando a vergonha o cala.

Ela me mediu, demorada, com o olhar de quem julga e pesa:
— O senhor parece entender bastante de desejo.
— Tenho tido longas noites... É o que a solidão me entrega.

— Noites longas não são experiência — ela rebateu. — Às vezes, as noites longas se tornam apenas repetição, o mesmo trilhar.


Sorri. Ela havia acertado no alvo da minha alma.
E eu nunca gostei quando conseguiam me decifrar.

— E a senhora? — perguntei. — Por que lê este texto?
O polegar dela acariciou a capa escura, sem pressa ou timidez:
— Para descobrir se uma mulher pode desejar algo...
Sem precisar pedir licença ao mundo, ao menos uma vez.

Olhei para a aliança em seu dedo. Ela notou o meu desvio.
— Não diga nada. Sei que pensa que sou uma mulher casada,
E que uma esposa não deveria folhear tais absurdos.
— Não — respondi. — Penso que a mulher deveria ser livre, ou nada.

Ela inclinou a cabeça, achando-me moderno demais para a época.
Quase ri por dentro. Como se ela soubesse que época estamos...
— E se o desejo contrariar o dever? — ela lançou no ar.
— Ah... — suspirei. — Chegamos à borda da quimera.

Compreendi que ela não lia. Ela pensava, refletia.
E pensar, em certas eras, é o crime mais rebelde e profundo.
Citei um velho filósofo sobre agir por leis universais.
Ela perguntou se eu concordava com as regras do mundo.

— Em alguns dias, sim — respondi e dei um bom trago no cigarro.
— E nos outros? — ela insistiu.
— Nos outros prefiro mulheres que fazem perguntas.
E o riso dela aceitou o desafio que o meu olhar propôs.

— Então responda — disse ela — se a sociedade diz que é imoral,
O desejo se torna maldito por não se encaixar no padrão?
— Não necessariamente.
— E se não prejudicar ninguém? Perguntou.
— A moral vai além do prejuízo. Ela vive de controle e prisão.

— Meu marido acha que sabe quem eu sou — sussurrou ela.
— E ele sabe? — indaguei, sentindo o peso da fala.
— Sabe quem precisa que eu seja. Sabe por que estou aqui.
E aquela frase ecoou, pesada, no silêncio da sala.

Eu conhecia aquela dor. Passei a vida inventando disfarces.
Adaptando apenas a máscara que melhor me servia.
— Todos temos nossas máscaras, Senhora — confessei a ela.
— O senhor troca as suas? — Ela perguntou, com uma estranha energia.

— De vez em quando. Para continuar livre.
— Não — ela me corrigiu, fechando o livro com precisão.
— O senhor troca de máscara para continuar escondido.


E dessa vez o meu riso morreu na garganta, sem negação.

Ela havia me atravessado com uma facilidade assustadora.
Acendi outro cigarro na face do isqueiro e disse — A senhora pouco sabe de mim.
— Sei mais do que deveria, Senhor Sendero — E abriu as páginas,
Revelando um papel dobrado, guardado bem ali no fim.

Meu coração, calejado por delírios, pesadelos e estradas,
Resolveu bater forte, lembrando que ainda era vivo.
Ela estendeu a folha na mesa. Reconheci a caligrafia.
Era a minha letra. Um eco do meu próprio arquivo.

— Isso não deveria estar aqui — eu disse, em choque.
— O senhor diz isso quando algo é apenas improvável.
Desdobrei o papel. Havia uma data que ainda não chegara.
É um aviso escrito por mim, claro e implacável:

“Quando encontrar a mulher que estiver lendo este livro,
Não tente salvá-la. Ela veio para salvá-lo de si mesmo.”

Levantei os olhos, a espinha gelada: — Quem é você?
— A pergunta está errada — ela disse, sem abismo ou cinismo.
— Qual a pergunta certa, então? — me aproximei.


E ela disse, quase tocando meu rosto: — Por que demorou tanto?

Ali eu entendi. Não foi o acaso. Não foi a biblioteca.
— Você sabia que eu viria? — perguntei, no limite da razão.
— Sabia. — Como? — Porque li as suas histórias.
— Mas elas sequer foram escritas! — clamei em negação.

Ela sorriu, mística e disse: — Para você, ainda não.
Olhei para ela por segundos que pareceram um século inteiro.
Compreendi ali a crueldade mais bonita do tempo:
Ele não nos impede de achar o destino verdadeiro,

Ele apenas nos faz passar a vida inteira procurando.

Aquilo que já estava guardado para nos encontrar.

Ela se levantou. O silêncio cobria a biblioteca.
Um sino distante começou a badalar.

O mundo continuava no lugar. Nós dois também.
Ela desabotoou o vestido, sem medo do que viria depois.
E aquela anciã biblioteca, testemunha de tantos segredos,
Guardou para sempre o mistério que nasceu entre nós dois.
Charro Sendero

Big Boy, no Cavern Club de hoje!

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