terça-feira, 8 de setembro de 2026

Luz Amarela, depois da Fábrica.

A minha paixão incurável é esta: a de não ter nada por que me apaixonar, e achar que isso basta. O que alguns chamam de amor é uma pressa em inventar mistérios onde só existe espaço, e eu prefiro o espaço. Olho para a noite e não procuro nela uma amante ou uma melodia; a noite é só o céu que ficou escuro porque o sol se deitou por trás das colinas, e ter paixão por ela é apenas aceitar que ela mude de cor sem me pedir licença. Seguro meu candeeiro e sua luz amarela não carrega saudades nem promessas; são lumes traçando  fios, lembrança que começa e logo deixa de ser. Sinto o cheiro do ar da noite, escuto o seu silêncio que é apenas o cansaço do mundo, e sinto-me feliz por não querer que a noite seja outra coisa. Minha alma tem a simplicidade de um canário da terra pousado no fio. Não amar nada com o pensamento, e amar tudo apenas com os olhos abertos, é a única paixão que me cura de... Envelhecer. A noite passa por mim sem me prometer nada, e eu a recebo sem lhe pedir nada; somos dois conhecidos que se cruzam no escuro e acham que o mundo está perfeito assim.
Charro Sendero

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