terça-feira, 18 de agosto de 2026


 A Mulher de Prazer


O relógio da biblioteca marcava quatro horas da tarde quando entrei.

Era 1920, as bibliotecas ainda tinham o silêncio dos lugares sagrados. As pessoas caminhavam entre as estantes como quem atravessava uma igreja e até o ruído de uma página sendo virada parecia uma espécie de confissão.

Eu procurava um livro que provavelmente não existia mas, era uma das minhas especialidades.

Percorri os corredores lentamente, passando os dedos pelas lombadas, até que alguma coisa, não exatamente um som, talvez apenas a intuição de um homem acostumado a desconfiar do tempo, me fez parar.

Ela estava sentada junto à janela. Cabelos negros à altura dos ombros. Traços delicadamente orientais. Vestia-se com a discrição que aquela época exigia das mulheres casadas, mas havia nela muita coisa que o vestido não conseguia domesticar.

Segurava um livro: Memórias de uma Mulher de Prazer.
Reconheci o título e sorri. Não para ela. Para o destino.
Ela percebeu. Ergueu os olhos por cima da página.

— Conhece o livro?
A pergunta veio baixa, quase escondida pelo silêncio da sala. Aproximei-me.

— Conheço a reputação dele.
Ela fechou o livro, deixando um dedo entre as páginas.
— E qual é a reputação?
Olhei para a capa, depois para ela.
— Depende de quem está lendo. Eu disse.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. Não era um sorriso de convite. Era pior. Era sorriso de curiosidade. Sentei-me diante dela. Por alguns instantes, não dissemos nada. Estalei meu isqueiro e acendi um Chesterfield.  Do lado de fora, uma chuva fina continuava em Santa Bárbara do Oeste. Dentro da biblioteca, porém, o tempo parecia ter parado. Ela abriu novamente o livro.

— O senhor acredita que as pessoas leem livros como este por curiosidade?

— Não.

— Por quê? Eu disse, pensei um pouco.

— Porque curiosidade é o nome que damos ao desejo quando ainda temos vergonha dele.

Ela me examinou demoradamente.

— O senhor parece conhecer bastante sobre desejo.

— Tenho tido longas noites.

— Isso não significa experiência. Às vezes significa apenas repetição.

Aquilo me fez sorrir. Ela tinha acertado e eu não gostava quando acertavam.

— E a senhora? — perguntei. — Por que o lê?

Ela passou o polegar pela borda da capa.

— Para descobrir se uma mulher pode desejar alguma coisa sem precisar pedir licença.

Olhei para a aliança em sua mão. Ela percebeu.

— Não precisa dizer nada — falou. — Eu sei o que está pensando.

— Duvido.

— Está pensando que uma mulher casada não deveria estar lendo um livro desses.

— Não.

— Então o que está pensando?

— Que uma mulher casada deveria poder ler o que quiser.

Ela inclinou a cabeça.

— Uma resposta bastante moderna para um homem desse tempo.

Quase ri. Se ela soubesse.

— E se o desejo contrariar o dever?

— Ah.

Ela fechou o livro novamente.

— Finalmente chegamos ao ponto.

Foi então que compreendi que aquela mulher não estava simplesmente lendo. Estava pensando.

E isso, em certas épocas, é uma forma bastante perigosa de rebeldia.

— Um velho pensador diria que devemos agir segundo princípios que pudéssemos desejar transformar em lei universal. Eu disse.

— E o senhor concorda com ele?

— Em alguns dias.

— E nos outros?

— Nos outros prefiro mulheres que façam perguntas.

Ela sorriu.

— Então responda: se uma mulher deseja algo que sua sociedade considera imoral, o desejo torna-se imoral?

— Não necessariamente.

— E se ela não prejudicar ninguém?

— A moral não se resume ao prejuízo.

— Não. Às vezes se resume ao controle.
Fiquei em silêncio.

Ela continuou:

— Meu marido acredita que sabe quem eu sou.

— E sabe?

— Sabe quem precisa que eu seja e sabe o porquê estou aqui.

Aquela frase ficou entre nós. Eu conhecia aquilo. Mais do que gostaria. Passei a vida inteira inventando personagens. Charro Sendero era apenas o mais bem-sucedido.

— Todos temos nossas máscaras — falei. Ela me olhou de maneira diferente.

— O senhor troca as suas?

— De vez em quando.

— Por quê?

— Para continuar livre.

Ela fechou o livro.

— Não.

— Não?

— Para continuar escondido.

Dessa vez não sorri. Acendi outro Chesterfield, ela havia me atravessado com uma facilidade desconcertante.

— A senhora pouco sabe sobre mim.

— Sei mais do que deveria.

Então ela abriu o livro. Entre duas páginas havia uma folha dobrada. Meu coração, que já atravessara sonhos, delírios e pesadelos, sem jamais demonstrar grande preocupação, resolveu naquele momento lembrar que existia. Ela colocou a folha de papel sobre a mesa. Reconheci a caligrafia antes mesmo de ler. Era minha.

— Isso não deveria estar aqui.

— O senhor costuma dizer isso quando alguma coisa é apenas improvável.

Desdobrei a folha. Havia uma data. Uma data que ainda não havia chegado. E, abaixo dela, uma frase:

“Quando encontrar a mulher que estiver lendo este livro, não tente salvá-la. Ela veio para salvá-lo de si mesmo.”

Levantei os olhos.

— Quem é você?

Ela demorou a responder.

— A pergunta está errada.

— Qual seria a pergunta certa?

Ela se aproximou ligeiramente.

— Por que demorou tanto?

Foi quando compreendi. Não havia sido o acaso que me levara àquela biblioteca. Não havia sido o livro.

— Você sabia que eu viria?

— Sabia.

— Como?

Ela tocou a página do livro.

— Porque li a suas histórias.

— Elas não foram ainda não foram escritas.

Ela sorriu.

— Para você, não.

Fiquei olhando para aquela mulher durante alguns segundos que poderiam ter durado um século.

Talvez tenha sido naquele instante que compreendi a verdadeira crueldade do tempo.

Ele não nos impede de encontrar alguém.

Ele apenas faz com que passemos uma vida inteira procurando aquilo que já estava destinado a nos encontrar.

Ela levantou-se. A biblioteca continuava silenciosa. Um sino distante anunciou a hora. O mundo permanecia exatamente onde deveria estar. Nós dois, também. Ela desabotoou o vestido e aquela biblioteca, testemunha de tantos segredos, guardou o nosso.

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