Navi Mangolini pilotava uma picape Rural Willys como se estivesse regendo uma orquestra de pistões e fumaça. Cada troca de marcha era um gesto de maestro; cada espirro do motor, uma nota fora da partitura. Ele era a rebeldia, idealizada e perdoada por suas atitudes autodestrutivas em nome do rock and roll.
Eu permanecia um segredo guardado por quem não sabe o que busca.
Lá fora estavam a placidez da Via Lagos e o final dos anos 90. A estrada parecia recém-inventada. O asfalto corria diante de nós com aquela solenidade das coisas que não sabem que um dia desaparecerão. Postos de gasolina em Boqueirão, placas verdes de Catimbau, terrenos baldios em Neves, pequenas casas atrás de cercas no distrito de Boa Esperança. O mundo ainda tinha telefones públicos, fitas cassete e uma certa inocência tecnológica. Ninguém sabia ainda que o século seguinte viria cobrar juros sobre cada minuto perdido.
Navi dirigia com uma mão no volante e a outra procurando alguma coisa no rádio. Era sempre alguma música estranha. Sempre.
— Você acredita no futuro, Sendero?
— Acredito no amor — eu disse.
Ele riu.
— Perguntei sobre o futuro.
— É a mesma coisa.
— Então você está na merda.
Eu sorri. Havia alguma coisa profundamente bacana em estar perdido ao lado de alguém que não acreditava em caminho algum.
A Rural tossiu. Navi bateu duas vezes no painel.
— Calma, velha. Ainda não chegou nossa hora.
Olhei para aquela máquina. Parecia impossível que uma coisa tão antiga pudesse continuar avançando. Talvez fosse por isso que eu não confiasse em máquinas: elas não precisavam compreender o tempo para atravessá-lo.
Estalei e risquei o Zippo, acendi um Chesterfield. Sabíamos que o tempo existia e, por isso, sofríamos.
— Você já reparou — perguntei — que ninguém viaja realmente para algum lugar?
— Claro.
— E?
— A pessoa só muda de lugar para continuar sendo a mesma.
De soslaio, olhei para ele. Navi acendeu um Marlboro.
— O homem inventou a estrada porque descobriu que ficar parado era insuportável. Depois, inventou a porra do destino para fingir que sabia para onde estava indo.
— Você é um sátiro.
— Sou um filho da puta realista.
A fumaça entrou, dançou com o vento das janelas abertas e ficou flutuando entre nós.
Do lado de fora, a tarde avançava. Não havia pressa. Era isso que me perturbava. O tempo não corria naquela estrada; ele simplesmente passava. As árvores continuavam sendo árvores. Os postes continuavam de pé. O céu permanecia indiferente. E nós, dois sujeitos dentro de uma caminhonete velha, acreditávamos que estávamos indo ao encontro de alguma coisa.
Talvez estivéssemos apenas nos afastando de nós mesmos.
Navi aumentou o volume. Um violão rompeu o silêncio. Por alguns quilômetros, não falamos.
Eu pensei nas mulheres que amei, nas que desejei, mas que talvez tivesse amado se soubesse como. Pensei na sabedoria, essa velha prostituta que nunca se entregava inteiramente. Pensei que talvez viver fosse isso: passar a vida inteira procurando uma porta e descobrir, tarde demais, que a porta estava dentro da gente.
Navi dirigia. Eu pensava. A estrada continuava.
— Sendero.
— Hum?
— Se você pudesse voltar no tempo, voltaria?
Olhei pela janela. Um cavalo pastava sozinho atrás de uma cerca.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu ainda não conheci todas as pessoas que vou amar.
Navi ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu voltaria.
— Para onde?
— Para qualquer lugar onde eu ainda não tivesse estragado tudo.
Foi a primeira vez naquela viagem que ele pareceu cansado. Depois, voltou a sorrir.
— Mas isso é impossível. Eu estragaria tudo outra vez.
E pisou no acelerador. A Rural respondeu com um rugido.
São Pedro da Aldeia apareceu devagar, como aparecem as cidades que não precisam provar nada a ninguém. O dia começava a descer. A luz tinha aquela cor antiga das fotografias que sobrevivem ao fotógrafo.
— Tá vendo aquelas placas, Sendero? Região dos Lagos.
— Estou.
— Pois é. Tem gente que vem atrás de paz, pescaria, pôr do sol...
— E você? — eu disse.
— Eu vim atrás das mulheres.
— Que mulheres, Navi?
— As de bunda grande, meu caro. Deus não colocaria tanta areia, tanto sol e tanta água num lugar desses sem nenhuma finalidade.
Eu ri muito.
— Você reduz o universo a uma bunda.
— No. Eu reduzo o universo ao que consigo compreender.
— E a porra do amor?
— O amor é quando a bunda vai embora e você ainda quer que ela fique.
Navi acelerou a Rural.
— Agora, sim, Senhor Sendero. Estamos chegando à filosofia.
Paramos num botequim. Não havia ninguém importante ali. Por isso mesmo, era perfeito. Sentamos numa mesa ensebada. Navi pediu cerveja. Eu pedi sardinhas no capote fritas. Quando chegaram, fumegantes, pequenas e douradas, fiquei olhando para elas como se fossem um milagre.
— Olha só — falei.
Navi pegou uma com os dedos.
— O quê?
— O tempo.
Ele olhou para a sardinha.
— Você está ficando maluco.
— Não. Pensa. Ela nasceu no mar, morreu, foi pescada, chegou aqui e agora está na nossa mesa. Tudo isso para que a gente coma em cinco minutos.
Navi mastigou.
— Filosofia de botequim.
— Porra é o instante da sardinha!
Ele tomou um gole de cerveja.
— E qual é a conclusão?
Olhei para o céu escurecendo atrás do balcão.
— Talvez o sentido dessa merda seja esse.
— Comer sardinha? — Ele ergueu a garrafa. — Então bebe, poeta.
Ergui a minha. Dei um bom gole .
Lá fora, a noite chegava sem fazer barulho. A Rural esfriava no estacionamento. O século terminava em algum lugar atrás do que a gente falava. E nós dois, bêbados e um pouco menos jovens, continuávamos sentidos diante de partes de espinhas de sardinhas, como se tivéssemos finalmente descoberto que a estrada nunca fora feita para nos levar a lugar nenhum. E, o cara nem me perguntou o que era sardinha no capote...
Charro Sendero

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