Abri uma longneck. Depois abri outra. Na terceira, Arturo Bandini já estava sentado na minha frente, gesticulando como um italiano ofendido, dizendo que era um grande escritor, que o mundo não o compreendia e que, francamente, merecia muito mais da vida.
Olhei para ele. Olhei para a garrafa. Olhei novamente para Bandini.
— Cara — eu disse —, você mora num quarto de hotel, está duro, não consegue conversar com uma mulher sem estragar tudo e continua achando que o universo está em dívida com você.
Bandini me olhou com desprezo. Arturo Bandini é esse jovem escritor que vive em Los Angeles com uma fome monumental: fome de dinheiro, de reconhecimento, de mulheres, de literatura e, principalmente, fome de ser alguém. Não alguém qualquer. Alguém g-r-a-n-d-e.
Aí começa o problema. Todo jovem sonhador acredita que nasceu para a grandeza, mas Bandini leva isso um pouco longe demais. O sujeito parece ter sido colocado no mundo com uma carta de reclamação já escrita no bolso: “Eu não pedi para nascer.”
Não, Arturo. Mas agora que nasceu, talvez fosse bom pagar o aluguel.
Bandini vive in Bunker Hill, numa Los Angeles que está muito longe daquela cidade glamorosa prometida pelos sonhos. Ele sonhava com mulheres luxuosas, casacos caros, bares elegantes, coquetéis, sucesso. Provavelmente imaginava entrar num lugar e ouvir alguém anunciar: “Senhoras e senhores… Arturo Bandini”.
E todos se levantariam. Uma mulher desmaiaria. Outra tiraria o casaco de pele. Um editor deixaria cair um cheque.
Mas a realidade tinha outros planos. A realidade sempre tem e normalmente são planos bem menos interessantes. Bandini está pobre. Miseravelmente pobre. É escritor, ou pelo menos está tentando ser, o que, em determinados períodos da vida, é uma maneira bastante sofisticada de dizer: “Estou desempregado, mas tenho uma máquina de escrever.”
É aí que aparece Camilla Lopez. E aqui, meus amigos, John Fante começa a se divertir às custas de Arturo Bandini.
Camilla trabalha no Columbia Buffet. É mexicana, garçonete e bonita. E, para o desespero absoluto do nosso aspirante a gênio, não está nem um pouco impressionada com Arturo Bandini. Essa é a primeira grande tragédia do rapaz. A segunda é que ele não sabe lidar com a primeira.
Bandini deseja Camilla, mas deseja como quem deseja uma estrela: de longe, com sofrimento, com poesia, com orgulho e com uma quantidade absolutamente impressionante de decisões erradas. Ele é o tipo do cara que, quando finalmente encontra a mulher que deseja, começa imediatamente a procurar uma maneira de estragar tudo. E Arturo Bandini tem muito talento para isso. Talvez seja o único talento que, no começo do romance, ele realmente domina.
Há uma coisa profundamente irritante em Bandini, e é justamente por isso que ele é tão interessante. Ele é arrogante porque é inseguro. É cruel porque está assustado. É vaidoso porque tem medo de não ser ninguém. E despreza aquilo que deseja.
Essa é uma antiga doença humana. Bandini se sente inferior e, para aplacar essa inferioridade, procura alguém que possa colocar abaixo de si. Camilla, por ser mexicana, acaba recebendo boa parte dessa estupidez. As huaraches dela, aquelas velhas sandálias de couro, tornam-se uma espécie de obsessão. Bandini olha para os sapatos e enxerga uma oportunidade para se sentir superior.
É um mecanismo tão cafona quanto ridículo. O homem não sabe quem é, então resolve explicar para os outros quem são:
— Você é isso. Você é aquilo. Eu sou americano. Você é mexicana.
— Você é isso. Você é aquilo. Eu sou americano. Você é mexicana.
E pronto. Por alguns minutos, Arturo Bandini se sente maior. Até Camilla abrir a boca.
Porque Camilla Lopez não é uma personagem criada para facilitar a vida do protagonista. Graças a Zeus. Ela não está ali para admirar o escritor, não está esperando que Arturo Bandini a salve e não está interessada na grandeza que ele enxerga em si mesmo. Camilla olha para Bandini e, aparentemente, pensa: “Esse sujeito é um idiota.”
E, sinceramente? Nem sempre ela está errada.
Então acontece o milagre. Um editor escreve. Um conto será publicado. Há um cheque. E Bandini, que até então estava a poucos passos de morrer pobre, desconhecido e dramaticamente convencido de sua própria genialidade, recebe uma prova concreta de que talvez, apenas talvez, ele realmente saiba escrever.
Aqui John Fante nos mostra uma das coisas mais bonitas de “Pergunte ao Pó”. Um escritor pode passar meses duvidando de si mesmo. Pode estar faminto, ser rejeitado, ser ignorado, ter o quarto ameaçado pelo aluguel. Mas basta uma carta. Uma. Uma carta dizendo: “Parece-me que o senhor fez um belo trabalho.”
Pronto. O homem ressuscita. Bandini volta ao Columbia Buffet com a autoestima de quem acaba de descobrir que Deus pessoalmente assinou seu contrato editorial. Agora ele tem dinheiro. Agora ele é publicável. Agora, naturalmente, Camilla Lopez deve cair aos seus pés.
Essa conclusão não foi confirmada por Camilla.
E é justamente aí que eu comecei a gostar do cara. Contra a minha vontade. Porque ele é ridículo. Mas todos nós fomos ridículos. A diferença é que John Fante teve a delicadeza de registrar o ridículo de Bandini numa máquina de escrever.
Bandini quer ser amado, quer ser escritor, quer ser americano, quer ser homem, quer ser importante e não sabe exatamente como ser nenhuma dessas coisas. Ele está no meio da vida antes de saber como vivê-la.
A juventude é essa estranha época em que uma carta pode nos transformar em reis e uma mulher indiferente pode nos convencer de que o universo inteiro perdeu o sentido. Bandini recebe um cheque e acredita que conquistou o mundo; Camilla sai com outro homem e ele volta a ser um miserável. A estabilidade emocional dele caberia numa colher de chá.
Depois há a praia. Santa Mônica. A noite. O mar. Camilla. Bandini. E os dois nadando nus.
Agora, qualquer sujeito sensato diria: “Arturo, meu rapaz… pare de pensar.” Mas Bandini é escritor. E escritores têm essa capacidade extraordinária de transformar um momento perfeito numa reunião interna.
Enquanto a vida acontece, o sujeito está analisando a vida. Enquanto a mulher está ali, ele está pensando na história que publicou. Enquanto o corpo existe, ele está discutindo identidade. Enquanto Camilla se aproxima, Arturo Bandini provavelmente está em algum lugar dentro da própria cabeça perguntando: “Mas o que significa ser americano?”
Arturo. Pelo amor de Deus. Você está nu no Pacífico. Volte para a Terra.
Camilla, naturalmente, começa a se afastar. E Bandini faz aquilo que homens desesperados fazem desde que inventaram o papel: escreve. Poemas, cartas, telegramas, declarações.
Provavelmente, se tivesse WhatsApp, mandaria:
“Oi.”
Dois minutos depois: “Está tudo bem?”
Cinco minutos depois: “Eu fiz alguma coisa?”
Dez minutos depois: “Você está estranha.”
“Oi.”
Dois minutos depois: “Está tudo bem?”
Cinco minutos depois: “Eu fiz alguma coisa?”
Dez minutos depois: “Você está estranha.”
Felizmente, John Fante viveu numa época em que a tecnologia ainda impunha algum custo financeiro ao desespero amoroso. Cada telegrama precisava ser pago. Isso talvez tenha salvado muitas relações.
Quando Bandini vê Camilla saindo com Sammy, o barman, seu mundo desaba. Naturalmente. Porque Bandini havia imaginado Camilla. Mas Camilla tinha a péssima mania de existir por conta própria.
E isso é uma das coisas mais dolorosas de “Pergunte ao Pó”. Nós imaginamos as pessoas. Criamos versões delas.
Não costumo culpar o universo por ter me colocado no mundo. E, se uma mulher me disser que sou arrogante, provavelmente pedirei outra cerveja antes de responder. Bandini não é a projeção dos meus sonhos. Mas eu reconheço nele uma coisa perigosa: o sonhador.
Porque todo sonhador, em algum momento, acha que nasceu para alguma coisa maior. E talvez tenha nascido. O problema é o intervalo entre essa certeza e a realidade. Entre uma longneck e o próximo aluguel. É ali que moramos. Entre o sonho e o aluguel. Entre a mulher ideal e a mulher real.
Entre o conto que escrevemos e o editor que ainda não respondeu. Entre o desejo de ser grande e a absoluta falta de provas de que somos. Bandini mora nesse intervalo. E Fante o acompanha sem piedade.
No final, fechei “Pergunte ao Pó”, olhei para a última longneck e pensei que talvez tivesse sido injusto com Arturo. Bandini é um jovem tentando descobrir quem é. Só que faz isso da pior maneira possível: em público.
John Fante teve a genialidade de transformar suas misérias em literatura. E talvez essa seja uma das grandes lições do livro. Viver não basta. Sofrer não basta. Amar não basta. Ser pobre não basta. Ser rejeitado por Camilla Lopez também não basta — embora, para Arturo Bandini, isso certamente tenha parecido suficiente para escrever uma enciclopédia.
É preciso transformar tudo isso. A vida é apenas a matéria-prima. O escritor precisa encontrar o fogo. E John Fante encontrou. Por isso “Pergunte ao Pó” continua respirando. Por isso Arturo Bandini continua vivo. No fim das contas, ele provavelmente sabe mais do que nós.
E por isso, depois de algumas longnecks, recomendo: Leia John Fante. Leia “Pergunte ao Pó”. Mas não tente ser Arturo Bandini. O mundo já tem jovens arrogantes, tolos e convencidos de que merecem mais do que receberam.
Seja outra coisa. Ou, pelo menos, pague a próxima cerveja. E, se tiver alguma dúvida sobre a vida, o amor, a literatura ou Arturo Bandini…
Pergunte ao pó.
Charro Sendero

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