O cheiro de tempero e carne assada escapava pelas portas da cantina e se espalhava pela avenida poeirenta em frente à siderúrgica Hime. Era esse aroma caseiro que guiava os meus passos naquela tarde; eu estava faminto, com uma fome que vinha de dias. Ao atravessar o portal em arco de madeira, entrei em um salão barulhento, tomado por mesas forradas de toalha xadrez vermelha e branca. Sobre cada uma delas, repousavam duas lustrosas longas garrafas: uma de farinha de mandioca e outra de pimenta curtida.
O movimento ali dentro seguia o ritmo dos relógios da fábrica. Os operários entravam e saíam em um fluxo contínuo de uniformes sujos de fuligem, divididos pela hierarquia visual de seus capacetes. Havia cores para cada grupo, cada setor, cada nível de perigo. Encontrei um lugar vago no balcão, ao lado de dois homens que usavam capacetes brancos e alternavam goles generosos em canecas de vinho tinto antes do almoço chegar.
O diálogo deles me fisgou imediatamente pela profundidade do descontentamento. Eu nunca tinha ouvido uma conversa tão severa, tão técnica e, ao mesmo tempo, tão revoltada sobre fundição e laminação.
— O sacana da engenharia queria que os rapazes mudassem o resfriamento dos tarugos no gogó, Macêdo — disse o mais jovem, Vianna, gesticulando com a mão segurando cigarro.
— Ele olha para o gráfico e acha que o aço entende de matemática. Se a velocidade de laminação não casar com a temperatura da mesa de saída, a gente vai entregar uma folha cheia de trinca interna para os paulistas.
O outro homem, mais bruto, de ombros largos e mãos que pareciam pedaços de ferro fundido, limpou a boca com guardanapos. Seu nome era citado por quase todos que entravam na cantina. Era uma procissão de respeito: "Boa tarde, Macêdo", ou "Como vai, Macêdo?". Ele apenas acenava, com a autoridade de quem conhecia cada milímetro daquela siderúrgica.
— Engenheiro acha que o forno é um fogão de cozinha, Vianna. Disse Macêdo, com a voz grave ecoando por cima do barulho dos pratos. — Eles mudam a liga no papel e acham que o convertedor vai aceitar sem cuspir fogo na cara de ninguém. Na semana passada, queriam reduzir o tempo de vazamento. Eu avisei: o metal não estava pronto, a escória ainda estava densa. Não me ouviram. O resultado? O canal entupiu e perdemos muito de corrida. Eles não sentem o calor da boca do forno; eles só veem números.
Fiquei ali, imóvel, fingindo olhar para as garrafas de farinha e pimenta na mesa da frente, mas absorvendo cada palavra. Havia uma dignidade assustadora na forma como defendiam o próprio ofício contra a teoria dos escritórios. Era intuição deles. Vem junto com a natureza de cada um e o conhecimento verdadeiro coloca no mesmo plano. Mas o que me moveu até aquele refeitório foi exatamente isso: o choque sensorial daquela conversa, a presença rústica daqueles caras de capacetes coloridos e a realidade palpável da fundição impregnada no ar.
Pensei em pedir emprego, mas o respeito que aquela conversa me impunha travou a garganta. Comi aquele prato feito e fui para o terminal hidroviário. Depois de meia hora, embarquei na Ipanema, caminhei até a proa, acendi um cigarro diante das águas escuras da Guanabara, que pareciam convidar propícios pensamentos sobre o meu destino; aquela intuição sensível da cantina se transformou em decisão. O cheiro do ferro, o som das águas e os ruídos industriais ainda ecoavam em mim. Podia ver sem esforço o que me fazia precisar voltar à Siderúrgica Hime.
Charro Sendero

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